Míriam Leitão
O Globo
Para quem vê de fora, o Chile parece uma ilha de prosperidade econômica na América Latina. O PIB cresceu 4,7% no terceiro trimestre, com média de 5,6% ao ano, entre 2010 e 2012. O rating do governo tem a mesma nota do Japão, e a taxa de investimento chegou a 25% do PIB. O desemprego é de 5,7%, e a inflação está em 1,5%, abaixo da meta. Mas os bons números não têm garantido a eleição de candidatos governistas.
No Chile, não é permitida a reeleição, mas ex-presidentes podem voltar a se candidatar após um mandato de espera. Michelle Bachelet governou entre 2006 e 2010 e seu candidato perdeu as eleições para o opositor Sebástian Piñera. Agora, Piñera não consegue emplacar sua indicada, e Bachelet deve voltar ao governo depois de receber 47% dos votos em primeiro turno.
O economista chileno Rodrigo Aravena trabalha no banco brasileiro Itaú Unibanco, no Chile. Ele explicou que, apesar dos bons números, a economia está em segundo plano nas eleições. O PIB per capita do país triplicou em cerca de dez anos e a classe média se fortaleceu muito. Agora, há novas demandas sociais, não diretamente relacionadas à área econômica.
— Bachelet representa mais esses anseios, principalmente por sua proposta para a educação gratuita, e o governo tem condições de financiar o projeto. O risco maior para a economia é a dependência das exportações de cobre e do desempenho da China — disse.
A exportação de cobre chega a 15% do PIB chileno e 60% da pauta de exportações. Se o preço do produto cair no mercado internacional, a economia vai desacelerar e o governo vai arrecadar menos. Ainda assim, a proposta de elevar os gastos com educação, que podem subir em 2 pontos percentuais do PIB, não assustou investidores porque as contas públicas do país estão em ordem. O governo teve superávit nominal em 2012 e tem o maior rating da América Latina pela Standard & Poors, AA-, ao lado de países como o Japão.
Para o Brasil, o mais importante é que o Chile continue crescendo. O país é nosso terceiro maior parceiro comercial na América Latina, atrás de Argentina e México, com US$ 7 bilhões de corrente de comércio de janeiro a outubro.
Ruído inflacionário
Repercutiu mal a declaração sobre inflação da presidente Dilma Rousseff, em seu twitter, ontem. A presidente disse que pelo décimo ano consecutivo o IPCA ficará “abaixo da meta de 6,5%”. Como a meta é 4,5%, com tolerância de dois pontos, muita gente no mercado entendeu que o governo não persegue o centro e está satisfeito com o limite superior da banda. Declarações desse tipo afetam as expectativas e dificultam o combate à alta dos preços pelo BC. Na semana que vem, a Selic deve subir para 10%.
Custo de vida. Os economistas preveem que a prévia da inflação oficial, o IPCA-15, ficará entre 0,61% e 0,71% este mês. Isso significa que pode ser maior do que a de outubro (0,48%). Como a mediana está em 0,65%, a inflação em 12 meses pode ficar ainda mais próxima do teto da meta, em 5,87%. O dado oficial sai hoje.
Revés na balança.
No início do ano, a projeção do Boletim Focus para a balança comercial era de US$ 15 bi. Ontem, foi a US$ 1,2 bi. De janeiro a novembro, ainda há déficit de US$ 105 milhões.
