Júlio Ottoboni
DCI - Diário Comércio Indústria & Serviços
SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - Dificilmente a direção mundial da General Motors (GM) aplicará os R$ 2,5 bilhões na fábrica de São José dos Campos, no interior de São Paulo, ou mesmo no Brasil. O que levaria ao encerramento das atividades no Vale do Paraíba. Essa é a constatação de especialistas e quadros qualificados da multinacional ouvidos pelo DCI. Os motivos agora vão além da queda de braço da montadora com o Sindicato dos Metalúrgicos. Eles abrangem a nova conjuntura econômica brasileira e exigências tecnológicas para os veículos nacionais. A decisão, segundo a presidência brasileira da companhia, ficou para este ano e um certo desânimo já é demonstrado em relação a esse projeto.
A atenção da GM mundial para os rumos econômicos está aguçada, desde que viu a marca praticamente ser varrida do mapa europeu pela crise econômica. No ano passado, o Brasil passou a disputar os grandes investimentos a serem anunciados pela matriz, mesmo sendo um passageiro de última hora. No momento, porém, outros dois países também estão no páreo.
A postergação do anúncio pela GM mundial foi para atender um pedido da filial brasileira. Desde então, isso já ocorreu por quatro vezes, todas em 2013. Alguns arriscam que até março saia o novo rol de investimentos e suas localidades, como a própria empresa já admitiu. Entretanto, em meio aos concorrentes se encontra a Indonésia, o novo foco da multinacional norte-americana.
A conta do fechamento da maior unidade fabril em território brasileiro - que estava para ser paga apenas pelas dificuldades da relação com o Sindicato dos Metalúrgicos de São José, somadas ao alto custo da mão de obra e por fábricas ultrapassadas para abrigar novos projetos - será dividida. Entram agora na divisão do prejuízo a política de aumento do IPI anunciado pelo governo, o grave endividamento da classe média, a volta da inflação e as exigências de equipamentos de segurança nos compactos.
Recentemente, o presidente da GM América do Sul, Jaime Ardila, deu indícios que a situação estava drasticamente alterada. "Os investimentos não foram anunciados porque estamos analisando a viabilidade financeira e, sobretudo, o comportamento do consumidor", disse o executivo. Para Ardila, cada vez fica mais difícil identificar qual é a resposta do mercado nacional. E ele se explica: "são dois os motivos, as mudanças no hábito dos consumidores e a regulação para itens de segurança e conforto."
O risco Brasil está cada vez mais claro para a direção da GM. Com a volta da inflação, ações populistas dentro da economia, um consumidor absorto em meio a tantas opções e o encarecimento do veículo por exigência de lei, como freios ABS e sistema de airbags dificilmente a empresa conseguiria colocar um carro popular e com alto poder competitivo, ainda mais enfrentando a chegada de carros asiáticos ao País.
A decisão final da GM pelo problemático polo de São José dos Campos passará pela direção mundial da companhia, que já não tem o Brasil como um mercado redentor para a retração europeia. A indicação foi dada pelo presidente da montadora no País, Santiago Chamorro, que aguarda a análise de seus superiores e eventuais vantagens que o governo possa apresentar nos próximos meses. "O primeiro trimestre de 2014 nos parece a data mais indicada para este anúncio", declarou logo que assumiu o comando geral, em agosto último.
Decepção
A cautela de Chamorro é vista também como uma ponta de decepção pelas partes envolvidas no processo de atração do investimento, como trabalhadores, como prefeitura e governo de São Paulo. Tanto ele como o diretor de relações institucionais, Luiz Moan, sabem que esses R$ 2,5 bilhões seriam cruciais para abrir novas perspectivas de mercado e enfrentar a chegada de novos concorrentes em condições de igualdade. "Esse novo modelo de veículo é tido como fundamental para a GM do Brasil e, sendo muito sincero, esse investimento é vital para o complexo de São José dos Campos", admitiu Moan.
A montadora ainda estuda muitas alternativas dentro do projeto, entre elas como se adequar às regras do Inovar-Auto, características do modelo a ser produzido ou volume de fabricação e agora a subida progressiva do IPI, que tinha aliviado o peso da carga tributária sobre o produto. Em meio a essas questões está o custo do veículo tanto para a produção como ao consumidor final. O carro, que a princípio seria um compacto econômico, terá um incremento em seu preço final.
Para o executivo, a previsão inicial para o anúncio, primeiro em maio, depois em junho e chegando até julho foi um erro. "Talvez tenha sido um pouco otimista demais", revelou. Além do novo prazo, Chamorro não garante sequer que o investimento GM já esteja certo em São José dos Campos e nem mesmo no Brasil, como se chegou a ser divulgado em diversas esferas, inclusive do governo federal e municipal. "Até concluirmos todos os cálculos tudo pode acontecer".
Vantagens e desvantagens
Os diretores da GM do Brasil podem não admitir, mas a montadora brasileira entrou tarde na disputa e numa busca desesperada para conquistar diferenciais com os rivais que sensibilizassem a matriz. Os investimentos já estavam encaminhados para a Indonésia, potencializados pela crise na joint venture criada pela GM com o governo da China. A ideia já amadurecida era fechar a fábrica do Vale do Paraíba, porém, com a possibilidade de perder um dos locais mais vantajosos para o abastecimento dos mercados interno e externo.
Contudo, a política de apoio à indústria automobilística da presidente Dilma Rousseff, somado a incentivos vindos do governo paulista e da prefeitura local, poderiam alterar o quadro. Então valeria insistir uma última vez.
Procurada, a GM afirmou que desconhece qualquer decisão sobre o caso, que segue sem definição. Ainda ontem, Moan afirmou, na posição de presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que as demissões ocorridas com "uma associada" fazem parte de um acordo já assinado "há muito tempo". Sobre o fim do benefício do IPI para a GM por conta das demissões, Moan destacou que desde maio de 2012, foram gerados mais de oito mil postos de trabalho na cadeia automotiva como um todo. "O compromisso com o governo de manter os empregos foi cumprido", disse.
Na sexta-feira, o sindicato de São José e a montadora irão se reunir para discutir sobre as demissões.
