sexta-feira, janeiro 10, 2014

Novo capítulo na briga do governo Cristina com o ‘Clarín’

Janaína Figueiredo 
O Globo

Equipe de TV do grupo é agredida ao denunciar viagem do diretor da Receita para o Rio ao lado de empresários

Grupo Clarín 
Ligação perigosa. Viagem de Ricardo Echegaray (de camiseta branca) 
para réveilon carioca teria custado US$ 80 mil 

BUENOS AIRES - O ano de 2014 começou com um novo capítulo na guerra entre o grupo de meios de comunicação “Clarín” e o governo argentino. Desta vez, o motivo de disputa não foi a Lei de Meios (cuja implementação ainda continua pendente no país), e sim uma reportagem do canal de TV “Todo Notícias”, que pertence ao “Clarín”, sobre o réveillón do chefe da AFIP (a Receita Federal argentina), Ricardo Echegaray, que passou a virada do ano no Rio, com outras 15 pessoas, entre elas o empresário Jorge Lambiris, que passou um mês e meio na cadeia em 2000 e foi investigado por suspeita de contrabando. Segundo versões extra-oficiais, Lambiris seria sócio do chefe da AFIP. A viagem terminou em escândalo: uma equipe de quatro pessoas do “Todo Notícias”, que tentou cobrir o retorno de Etchegaray a Buenos Aires, acusa os supostos amigos do diretor da Receita argentina de agressão no aeroporto internacional Tom Jobim.

Viagem teria sido paga por empresário
Nesta quinta-feira, a manchete do jornal “Clarín” acusava Echegaray de ter viajado ao Rio com as despesas pagas por Lambiris, conhecido como “Uruguaio”. No entanto, o funcionário nega ser amigo do empresário e afirma que viajou para descansar com sua família. Após retornar à Argentina, o chefe da AFIP deu uma coletiva na qual acusou o diretor executivo do grupo Clarín, Héctor Magnetto, de ter “orquestrado uma operação de linchamento midiático”.

- Magnetto não merece possuir uma licença de meios de comunicação - declarou Echegaray, que desmentiu, também, ter visto a agressão sofrida pela equipe do canal de TV do grupo Clarín que revelou sua viagem ao Rio.

A denúncia da viagem, feita pelo “Todos Notícias”, irritou muitos argentinos, justamente em um momento em que o país enfrenta uma onda de apagões que, em alguns casos, deixou vários bairros portenhos às escuras por quase três semanas. Enquanto isso, Echegaray passou o Ano Novo hospedado no hotel Sofitel, em Copacabana, participando de uma das festas de réveillon mais famosas do mundo.

- Tenho 225 dias de férias para tirar - argumentou o diretor da AFIP na coletiva.

Os jornalistas do “Todo Notícias" asseguram que Etchegaray presenciou a agressão, mas o funcionário é taxativo ao afirmar que não viu qualquer tipo de ataque à equipe de TV.

- Se houve violência ou agressão, da qual não participei, manifesto meu total repúdio - disse o chefe da AFIP.

Mas sua declaração foi contestada pelos jornalistas:

- É impossível que Echegaray não tenha visto, ele estava muito perto e com certeza presenciou o ataque. Sua mulher foi quem nos identificou - disse o repórter Nacho Otero, um dos agredidos.

Registro na delegacia do Leblon
Para ele, o que mais incomodou o chefe da AFIP foi “ter sido visto com seus dois principais homens de confiança, que são muito mais do que pais de amigos de seus filhos, como ele diz”.

- Lambiris é a chave para chegar a Echegaray na alfândega. Ele tem uma empresa de logística, mas fora dos papéis ambos têm uma relação comercial que estamos tentando comprovar - comentou.

Também participou do tour carioca o empresário Sergio “Careca” González.

- Ele é dono de três empresas de comércio exterior e é quem controla os portos. Os três seriam sócios. Estamos investigando - frisou Otero.

Após o incidente, os jornalistas argentinos fizeram denúncia na delegacia do Turista, no Leblon, por “lesão corporal provocada por socos, tapas e pontapés”. Entre os agressores, estava, de acordo com as vítimas, Lambiris, o mesmo, que, segundo o jornal “Clarín”, gastou cerca de US$ 80 mil para pagar a viagem do grupo durante o réveillon.

Echegaray também foi questionado por ter viajado pela companhia aérea Fly Emirates, quando a nacional Aerolíneas Argentinas, um dos xodós da presidente Cristina Kirchner, tem voos diretos para o Rio.