terça-feira, janeiro 21, 2014

Racialização da crise

Ruy Fabiano
Blog do Noblat

A tentativa de racialização da crise social brasileira, que integra a agenda politicamente correta da esquerda, é um dos atos mais hediondos já cometidos contra o país.

Antes de mais nada, porque, em vez de integrar raças e culturas – como diz pretender a Secretaria de Estado que leva esse nome -, desintegra, divide, hostiliza. É, portanto, um desserviço.

E é também um absurdo, quando se sabe que se trata de uma nação maciçamente constituída por mestiços. A própria esquerda não se cansa de proclamar que o branco brasileiro não é exatamente branco, se comparado ao europeu. Seria, no máximo, um branco de segunda classe, sem pureza ou pedigree.

A legislação brasileira que pune o racismo é possivelmente a mais dura do planeta. Basta que alguém chame um negro de negro para ser preso, sem direito a fiança e sem que haja prescrição do delito.

Pode-se xingar a mãe e os antepassados, mas não pode haver menção à cor. Se o negro, porém, chamar um branco de “azedo” ou uma mulher de “loura burra”, não há problemas.

A ministra da Integração Racial diz que o racismo do negro contra o branco “é natural”.

Combate-se o racismo de um lado só, o que transforma o que poderia ser um saudável processo de resgate cultural a uma raça que há mais de um século padeceu a escravidão em instigação à luta racial, inaugurando no país mais uma moléstia social.

O Brasil escravagista tinha um perfil populacional inteiramente distinto do atual. Era fundamentalmente um país formado por negros, índios e ibéricos e da mestiçagem entre eles.

A partir do final do século XIX, o país agregou levas de imigrantes alemães, italianos, japoneses, libaneses, poloneses, entre outros. Nenhum desses povos, que hoje formam um núcleo expressivo da população brasileira, tem qualquer responsabilidade com o passado escravagista do país.

No entanto, seus descendentes são também arrolados como “a elite branca”, que precisa ser punida e pagar pelos crimes de seus antepassados.

Os rolezinhos são mais uma tentativa, em nome da justiça social/racial, de promover mais desagregação no país, cujo grande desafio é reduzir os abismos sociais entre ricos e pobres, não importa a cor.

O próprio conceito vigente de negro é altamente discutível. Segundo o IBGE, os negros no Brasil constituem 8% da população; os mestiços, 42%.

Diante da implacabilidade dos números, as ONGs que cuidam de políticas raciais decidiram que mulatos são negros. Ora, mulatos são a mescla de branco e negro. São, portanto, a negação do racismo. São, em si mesmos, a integração racial, que a Secretaria do mesmo nome se empenha em destruir.

Não se nega que há ainda – e possivelmente haverá sempre – quem se incomode (hoje, com certeza, uma minoria) com a cor da pele alheia. Não há lei que mude isso.

O que a lei pode – e faz – é punir quem, em função disso, queira restringir direitos ou humilhar pessoas. O resto só o tempo e o aprimoramento civiizacional (fruto do tempo) pode transformar. E isso, apesar de todos os pesares, há muito está em curso.

O risco da manipulação do discurso racial é o de promover, com o espantoso apoio do Estado, um retrocesso nesse quadro. A pobreza – e não a raça – é o grande complicador do processo social brasileiro, a grande chaga moral do país.

Dizer que os shoppings centers discriminam negros por serem negros é falso. Basta visitar qualquer um. Há shoppings de elite, nos bairros mais caros, e os populares, nos bairros da periferia.

O que se discrimina é a pobreza, o que é igualmente sórdido, mas que não se supera com estímulos à violência e ao irracionalismo –e muito menos ao racismo.

A redenção social (se é que o termo cabe) não virá nem dos black blocks, nem dos rolezinhos. O que eles produzem é pancadaria, confusão e vítimas – numa palavra, desagregação. Resta saber a quem isso interessa.