domingo, abril 27, 2014

Vergonha nacional. Graça Foster realmente mentiu no senado, porque Pasadena não refina nem 20 mil barris/dia.

Carlos Newton
Tribuna da Imprensa


Com a decisão da ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, será enfim instalada a Comissão Parlamentar de Inquérito com foco apenas em suspeitas sobre a Petrobras. Vai ser um verdadeiro festival para a oposição, porque não faltam irregularidades a serem devassadas.

A compra da refinaria em Pasadena é totalmente injustificável e finalmente serão conhecidos os principais protagonistas do escândalo, que no momento se concentra especialmente em Nestor Cerveró, então diretor da Área Internacional da Petrobras, à qual se subordina a subsidiária Petrobras America, que conduziu o negócio com a empresa belga Astra Oil.

Antes mesmo da instalação da CPI, o castelo de cartas de Pasadena já está desabando e vai ter influência na próxima campanha eleitoral, porque as mentiras poderão ser oficialmente apontadas, como a superdimensionada produção da refinaria/sucata, que Graça Foster, Nestor Cerveró e o ex-presidente Sérgio Gabrielli apregoam ser de 100 mil barris/dia, quando na realidade não atinge nem mesmo um quinto deste total.

COMPRANDO NO “ESCURO”
Quando surgiu o escândalo, registramos aqui no Blog que a produção de Pasadena não poderia ser de 100 mil barris, porque a refinaria fora vendida pela família Rockefeller para a Astra Oil por apenas US$ 42,5 milhões, uma quantia ínfima e desprezível nos negócios ligados ao petróleo. E a dinastia Rockefeller tem um lema famoso: “O melhor negócio do mundo é uma companhia de petróleo bem administrada, e o segundo melhor negócio é uma companhia de petróleo mal administrada”. Portanto, para chegar a ponto de ser vendida pelos Rockefeller, uma refinaria precisa estar mesmo na CTI…

Agora se sabe que, conforme vínhamos afirmando com absoluta exclusividade, a apregoada produção de 100 mil barris/dia era coisa de um passado longínquo, dos tempos de instalação da refinaria, em 1934.

O sucateamento da unidade era visível nas fotos e nas imagens da emissoras de televisão. E com as reportagens que se seguiram, pôde-se constatar que havia também problemas colaterais, como os enormes prejuízos ao meio ambiente, que ainda precisam ser corretamente avaliados.

Ficou logo evidente que o negócio foi fechado sem que houvesse uma auditoria completa, como seria de se esperar numa operação de tal vulto, que começava com US$ 360 milhões, mas na Petrobras sabia-se que a velha refinaria americana exigiria investimentos de mais US$ 500 milhões, para operar à meia-bomba, digamos assim.

Mas não houve nenhuma ação preventiva, auditoria, “due diligence”, vistoria, nada, nada. Caso contrário, não teria havido o negócio, porque algum funcionário decente da Petrobras protestaria ou vazaria para a imprensa, como estão fazendo agora, apesar da ridícula ameaça de punição pela Corregedoria-Geral da União.

REFINARIA PRODUZ 18 MIL BARRIS/DIA
Quando começamos a escrever sobre o assunto, previmos que os técnicos e engenheiros se rebelariam, porque a Petrobras é uma das reservas morais do país. Seus funcionários sabem o que significa interesse nacional, não são vendilhões da pátria. Agora, vazaram uma importante informação à O Globo, publicada pelos repórteres Vinicius SassIne, Chico  de Góis e Danilo Farielo, sobre uma auditoria realizada em 2010. Entre janeiro e agosto de 2010, conforme esse levantamento, o faturamento chegou a US$ 2,2 bilhões, equivalentes a 4,2 bilhões de litros de óleo.

São dados são importantíssimos e incontestáveis. É só fazer o cálculo. De janeiro a agosto, 240 dias. A produção foi de somente 4,2 bilhões de barris. Dividindo esse total pelos 240 dias, dá menos de 18 mil barris refinados por dia.

Essa inexpressiva produção bate com os números levantados pelo comentarista Wagner Pires aqui no Blog da Tribuna da Internet (ele e Flávio José Bortolotto formam uma dupla imbatível em análise econômica). Na semana passada, Pires descobriu que a produção da Petrobras na América do Norte foi de apenas 22,9 mil barris/dia em fevereiro. Ou seja, faltariam exatos 77,1 mil barris/dia para atingir a produção de 100 mil barris/dia apregoada por Gabrielli, Foster e Cerveró, que são hoje os principais protagonistas do escândalo, faltando nominar os demais diretores envolvidos na época, especialmente os das seguintes áreas: Jurídica, Engenharia e Abastecimento, além de seus assessores principais, que jamais poderiam ter aceitado a negociata e tinham dever de denunciá-la.

Agora, enfim sabe-se a verdade. Nosso comentarista Wagner Pires tinha razão: a refinaria de Pasadena não consegue processar nem os parcos 22,9 mil barris/dia extraídos pela Petrobras America. Este caso é uma vergonha nacional. Logo voltaremos a ele, claro.