José Paulo Kupfer
O Estado de S.Paulo
É notável o avanço dos investimentos de estrangeiros em renda fixa, no mercado brasileiro. Só no primeiro trimestre deste ano ingressaram US$ 11,6 bilhões, maior montante em 16 anos. Notável também é a parcela deste total dirigida a aplicações em títulos públicos. Nos últimos quatro anos, tomando como base o mês de fevereiro, a participação de não residentes na dívida pública local saltou de 9,8% do total para 17,3%, com forte aceleração a partir de meados de 2013.
Algum analista muito desavisado poderia creditar esse crescente interesse de investidores externos à evolução positiva dos chamados fundamentos macroeconômicos - os mesmos fundamentos que, curiosamente, em momentos de retração de investidores externos, mas agora em versão negativa, são usados por um bom número de analistas, nem tão desavisados assim, como justificativa para a fuga de estrangeiros.
Claro que a verdadeira explicação para essas idas e vindas tem, no caso, muito menos a ver com o panorama geral da economia do que com a trajetória oscilante das taxas de juros no período, combinada com a também oscilante variação cambial. Os fundamentos, nesse meio tempo, não se alteraram tanto assim - e se mudaram alguma coisa foi para pior, incluindo o rebaixamento de um degrau, pela agência de rating Standard&Poor's, na classificação de grau de investimento conferida ao Brasil.
Mas a fonte não secou, como seria de se esperar e, ao contrário, apesar das declarações generalizadas de pessimismo com a economia brasileira, bombeou recursos com mais intensidade. Ocorre que a taxa de juros escalou, do ano passado para cá, 3,75 pontos porcentuais, enquanto a taxa de câmbio, depois de alguns pinotes, valorizou-se e se acomodou num ponto baixo.
Foram movimentos propícios a inversões externas, potencializados por uma revisão benigna, no mercado financeiro global, das condições das economias emergentes e pela perspectiva de adiamento de altas dos juros nos Estados Unidos. Os treasuries de 10 anos, que namoraram por um tempo a linha dos 3%, recuaram para 2,7% e devem demorar mais do que o antes esperado para retomar o caminho histórico dos 4%, que disparariam nova reviravolta nos fluxos financeiros globais, em prejuízo dos emergentes.
Nada disso, porém, significa que a economia brasileira vai bem. Significa, isso sim, que é preciso matizar e contextualizar os clichês econômicos. Vincular, por exemplo, o volume alto ou baixo de ingresso de recursos externos à "confiança" ou "desconfiança" numa dada economia pode ser no mínimo prematuro e, ao final, equivocado.
Diante de uma taxa de retorno real por volta de 7%, como oferecido no momento pelos títulos públicos brasileiros - rentabilidade mais atraente do que a encontrada em grande parte dos mercados globais -, os padrões de definição de confiança nos fundamentos de uma economia, no mercado financeiro, costumam ficar muito elásticos.
Padrões de avaliação comparada entre economias também são em geral contaminados por visões políticas. A tendência do mercado financeiro é apostar em políticas econômicas que liberem mais a ação do mercado. Mas estas, como se assistiu na América Latina, entre a década de 70 e início do novo século, nem sempre entregaram o resultado prometido pela teoria.
Apesar dos gritantes erros do passado, o presente ainda não se modificou. Nos anos recentes, por exemplo, o Brasil foi substituído pelo México no posto de "queridinho" do mercado. O motivo principal é o "drive" liberal do presidente Enrique Peña Nieto, que assumiu em 2012 e enviou ao Congresso reformas liberalizantes, sobretudo nas áreas tributária e de energia. Contudo, os números da economia mexicana, nos últimos dez anos, incluído 2013, quando o crescimento não passou de 1,1%, comparados com os da brasileira, pelo menos até o momento, não sustentam a preferência.