sexta-feira, junho 20, 2014

Só um intervalo

J. R.  Guzzo
Revista VEJA

O uso da mentira tornou-se a forma mais praticada de política, e mais de 70% dos brasileiros estão insatisfeitos. Um Brasil como esse perde  se perder e perde se ganhar.


Um jogo de futebol, mesmo um jogo de abertura de Copa do Mundo, e com o time brasileiro em campo, é apenas um jogo de futebol. Para a maioria da população brasileira, as aflições da luta diária e silenciosa pela sobrevivência são bem maiores, na prática, do que qualquer tristeza esportiva; ninguém tem tempo para ficar chorando quando é preciso encarar, logo na madrugada seguinte, três horas de ônibus, trem e metrô para ir até o trabalho.  O ex-presidente Lula pode achar que é uma “babaquice” pensar em transporte público de primeira classe para quem vive na terceira, nesta bendita Copa que inventou de trazer ao Brasil sete anos atrás. Pode achar o que quiser, mas não vai aliviar em um grama a selvageria imposta à população  para que ela exerça seu direito constitucional de ir do ponto A ao ponto B – e muitos outros prometidos em troca dos 30 bilhões de reais que custará a Copa mais cara da história, num país começa nos 290 reais de renda por mês.  Do mesmo modo, as alegrias da vitória são apenas momentos que brilham, depois de leve oscilam, e se desfazem num prazo médio de 48 horas.  

A vitória do Brasil sobre a Croácia por 3 a 1,  em sua estreia mais grandiosa e emocionante disputa esportiva do planeta, foi um desses momentos que valem enquanto duram. Nãoa garante nada, é claro, numa competição de alpinismo em que cada passo rumo ao topo é mais difícil que o passo anterior;  garante mais, em todo o caso, do que uma derrota. 

Mas para a vida do Brasil e dos brasileiros  é apenas um intervalo que não muda nada – justamente numa hora em que é urgente mudar tanto.  É urgente porque o Brasil se encontra, neste mês de junho de 2014, em estado de desgoverno. A questão, a esta altura, não é dizer que o governo da presidente Dilma tem tudo para ficar entre os piores que o país jamais teve. Isso muita gente, e cada vez mais gente, está cansada de saber – segundo a última pesquisa do Pew Institute, organização americana de imparcialidade e competência indiscutíveis, mais de 70% dos brasileiros estão hoje descontentes com o governo; eram 55% em 2013. Esse nível de frustração, segundo o instituto, “não tem paralelo em anos recentes”. Que mais seria preciso dizer? O problema real, seja qual for o resultado final da Copa, é que o governo federal deixou de existir como autoridade responsável; traiu os eleitores, suprimindo o seu direito de ser governados sob o império da lei, e passou a agir no mundo da treva. Não se sabe se os donos do poder estão sonhando em arrastar  o Brasil para uma aventura solitária. Mas certamente dão a impressão de querem algo muito parecido com isso.

Lula, Dilma, o PT e as forças postas a seu serviço não aceitam, por tudo o que  dizem e sobretudo pelo que fazem, a ideia de perder a eleição presidencial de outubro.  Por esse objetivo, mandaram a governança do país para o diabo e empregam 100% de suas energias, sua capacidade de cometer atos ilegais e seu livre acesso ao dinheiro  público para impedir que a massa de insatisfeitos possa eleger para a Presidência qualquer candidato que não se chame Dilma Rousseff.  Uma greve ilegal e abusiva dos agentes do metrô de São Paulo, armada na zona escura dos apoios clandestinos ao governo, fez algo inédito: montou piquetes para impedir que os passageiros chegassem aos trens – dentro da estratégia de impor a desordem nos serviços públicos paulistas e, com isso, prejudicar candidatos da oposição.  Um decreto da presidente criou, e quer tornar efetivos, uns “conselhos populares” com poderes e competências acima do Congresso Nacional e do Judiciário. 

Num país com 55.000 assassinatos por5 ano, o governo nega aos cidadãos o direito fundamental à vida, ao tornar-se cúmplice dos criminosos com sua tolerância máxima ao crime – em quase doze anos de governo, Lula e Dilma não disseram uma única palavra contra esse massacre, e muito menos tomaram a mínima providência a respeito. Ambos tiveram, ou compraram, o apoio de 70% do Congresso; o que fizeram de útil com essa imensa maioria? ZERO. Ela foi usada apenas para impedir investigações sobre seus crimes, como na espetacular sequência de escândalos na Petrobrás, por exemplo, e encher o PT e seus aliados com empregos públicos, verbas e oportunidades de negócio. O uso sistemático da mentira tornou-se a forma mais praticada de ação política. A presidente da República não fala ao público na abertura da Copa – fica num discurso pré-fabricado de elogio a seu governo. 

Um Brasil como esse perde se perder e perde se ganhar.