Luiz Ernesto Magalhães e Selma Schmidt
O Globo
Mobilizando investimentos de pelo menos R$ 36,6 bilhões em obras, evento está a 754 dias de começar
Genilson Araújo / Parceiro
Vista aérea do Parque Olímpico Rio 2016, na Zona Oeste do Rio
RIO — O apito final do juiz italiano Nicola Rizzoli, na partida entre Argentina e Alemanha, neste domingo, no Maracanã, representará para o Rio muito mais do que o desfecho da 20ª Copa do Mundo. Faltando 754 dias para os Jogos, a cidade entra na reta final de preparação — será a primeira Olimpíada da história na América do Sul, mobilizando investimentos de pelo menos R$ 36,6 bilhões em obras. O tom das autoridades é de otimismo, de que tudo estará pronto a tempo. Mas o fato é que há muito a fazer. A Linha 4 do Metrô só deve entrar em operação no primeiro semestre de 2016, e não há garantias que a estação da Gávea será concluída a tempo dos jogos.
Para que o projeto de mobilidade tenha êxito, o Metrô e a Supervia ainda aguardam a chegada de dezenas de composições. Muitos orçamentos ou cronogramas sequer foram definidos. As obras no Parque Olímpico de Deodoro começaram apenas este mês, mas sequer foi elaborado um cronograma para a construção e reforma das instalações. No Parque Olímpico da Barra, os operários já trabalham 22 horas por dia para dar conta do serviço. Alguns projetos, como a reconstrução do Parque Aquático Júlio de Lamare, no Complexo do Maracanã, ainda dependem de licenças de órgão públicos.
A quantidade de obras ainda por fazer preocupa o Tribunal de Contas da União (TCU). Um relatório do TCU, do fim de junho, informa que a Matriz de Responsabilidades (de janeiro) detalhava que, dos 52 projetos essenciais para os Jogos, apenas 24 tinham valores e prazos definidos. No documento, os auditores observaram que a pressa na execução dos trabalhos pode elevar custos, ou prejudicar a qualidade das obras.
O exemplo dos Jogos Pan-Americanos de 2007 é citado pelo TCU, principalmente os problemas estruturais enfrentados pelo Engenhão, palco das competições de atletismo. Há mais de um ano, o estádio está fechado para obras. As adaptações necessárias para as Olimpíadas ainda estão no papel e só devem começar ano que vem. A matriz será atualizada nas próximas semanas.
Apesar dos problemas que levaram o Comitê Olímpico Internacional (COI) a fazer uma série de críticas à organização do evento, em abril, o Rio está prestes a se vestir do “padrão olímpico”. E ainda neste semestre, por exemplo, será lançado o programa de venda de ingressos, cuja gestão será de responsabilidade da própria entidade.
ECOBARREIRAS CONTRA O LIXO
Os cariocas já entram em clima olímpico em 2 de agosto, quando começa o primeiro evento-teste. Cerca de 300 atletas brasileiros e estrangeiros participarão durante uma semana de uma série de regatas na Baía de Guanabara, para testar as condições climáticas e as raias. Muito se fala que os atletas encontrarão águas poluídas. A Secretaria estadual do Ambiente, porém, sustenta que os índices de coliformes fecais nos locais de competição são historicamente aceitáveis. Para evitar que o lixo se torne um obstáculo, apostam-se em ecobarreiras.
Os problemas ambientais não sem limitam à Baía. Na Barra, o estado promete recuperar o tempo perdido para dragar as lagoas da região. Pelo contrato com as empreiteiras, o serviço só seria concluído em dezembro de 2016.
Quando faltarem exatos dois anos para os Jogos, em 5 de agosto, será apresentado o chamado “look of the games", a identificação visual e a sinalização das instalações e competições. No mesmo dia, está prevista a entrada em circulação do primeiro lote das 320 milhões de moedas de prata e ouro (para colecionadores) comemorativas. São 36 desenhos que fazem alusões a modalidades esportivas, a cartões postais como o Pão de Açúcar e o Sambódromo e à fauna brasileira. Em 28 de agosto, o Comitê Rio-2016 lançará um portal para a pré-inscrição de voluntários. A ideia é recrutar mais de 200 mil candidatos e selecionar 70 mil.
Ainda em agosto, a prefeitura fará licitação para contratar a empresa que vai elaborar um projeto de mobilidade para os Jogos:
— As realidades de Copa e Olimpíadas são bem distintas. No Mundial, as delegações circularam com batedores. Nas Olimpíadas, terão faixas exclusivas, e o controle de invasão das pistas será mais rigoroso. Além disso, muitos eventos serão ao ar livre e atrairão público, como a maratona, o triatlon e as provas de remo na Lagoa — diz o diretor de desenvolvimento da CET-Rio, Ricardo Lemos.
Em 2016, serão 29 dias de eventos e competições olímpicas e paralímpicas, entre agosto e setembro. Estão sendo esperados nada menos que 15 mil atletas de cerca de 200 países e um público que pode chegar a 7,7 milhões, somando todas as competições. Com tanta gente circulando, um dos desafios, segundo o presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio, Pedro de Lamare, é garantir a mobilidade, com todos os sistemas de transportes (metrô, BRTs e reforço da frota de trens) concluídos e funcionando bem.
— Com isso, não há necessidade de criar feriado, como aconteceu na Copa. No Mundial, bares e botequins bombaram, e os restaurantes da área turística foram bem. Mas restaurantes de outros locais se ressentiram. No Centro, o movimento caiu 50% — afirma o comerciante, que considera importante, ainda, preparar profissionais para atender com padrão internacional.
No quesito segurança pública, o perfil dos Jogos exige mais atenção do que a Copa, devido à concentração de eventos na cidade — apenas as eliminatórias do futebol não serão no Rio. O Comitê Rio 2016 montou uma equipe e dividiu o planejamento em 11 áreas, com coordenação de Luiz Fernando Corrêa, ex-secretário nacional de Segurança Pública, que colocou observadores na Copa. Ele aposta na integração com os órgãos públicos:
— A previsão é que os governos mobilizem até 60 mil agentes. Além disso, vamos contratar 18 mil pessoas para atuar nas arenas (stewards). Tudo corre em parceria com os governos. A cada 15 dias, nos reunimos com representantes dos ministérios da Defesa e da Justiça.
Quanto à hospedagem, não deverão se repetir problemas do Mundial, quando as diárias subiram até 43,52%, segundo o IBGE. A Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Rio (ABIH-RJ) acaba de atualizar acordo com o Comitê Rio 2016. Nos Jogos, as tarifas vão variar de US$ 164 (R$ 370) a US$ 550 dólares. Os hotéis que fecharam o acordo bloquearam de 70% a 90% de seus quartos. As reservas que não forem confirmadas até meados de 2016 serão desbloqueadas. A oferta de leitos também será maior: a previsão é de 41 mil quartos em 2016, cinco mil a mais que hoje.
