quarta-feira, julho 16, 2014

Como as dívidas aprisionam a Europa

Kenneth Rogoff (*)
O Globo

Débitos das famílias e instituições financeiras são maiores hoje, como percentagem da renda nacional, do que eram antes da crise

Os líderes da zona do euro continuam a debater a melhor maneira de revigorar o crescimento econômico. Na França e na Itália, eles agora argumentam que é preciso flexibilizar o rígido pacto fiscal. Enquanto isso, os países do Norte continuam a defender uma implementação mais séria da reforma estrutural. Num plano ideal, ambos serão contemplados, mas é difícil ver uma solução que não envolva reescalonamento ou reestruturação significativos da dívida. A incapacidade dos políticos europeus de aceitar este cenário coloca uma grande carga sobre o Banco Central Europeu (BCE).

Embora haja muitas explicações para a recuperação morosa da zona do euro, está claro que o excesso de endividamento público e privado tem importante papel. As dívidas brutas das famílias e instituições financeiras são maiores hoje, como percentagem da renda nacional, do que eram antes da crise. A dívida corporativa não financeira caiu apenas levemente. E o débito governamental, é claro, aumentou de forma aguda devido ao salvamento financeiro de bancos e a um profundo recuo na arrecadação fiscal por causa da recessão.

A Europa está lutando também com o envelhecimento da população. Países do Sul da zona do euro, como Itália e Espanha, sofreram com a competição crescente da China em têxteis e indústrias leves. Mas, assim como a bolha de crédito pré-crise mascarou problemas estruturais subjacentes, a escassez de crédito pós-crise amplificou fortemente a recessão. É verdade que o crescimento da Alemanha se deve muito à disposição do país, há uma década, de adotar reformas econômicas dolorosas, especialmente no mercado de trabalho. Hoje, a Alemanha parece ter pleno emprego e crescimento acima da tendência. Os líderes alemães acreditam, com alguma justificativa, que, se França e Itália adotassem reformas similares, fariam maravilhas para as perspectivas de crescimento de suas economias a longo prazo.

E o que dizer de Portugal, Irlanda e especialmente Espanha, que deram passos significativos em direção às reformas desde a crise? Todos experimentam taxas de desemprego de dois dígitos, crescimento desprezível e ainda sofrem com problemas de endividamento. Excessivo endividamento aprisiona os países num círculo vicioso. Elevados débitos públicos e privados limitam as opções e são associados a menor crescimento, o que dificulta escapar da armadilha. A campanha contra quem ousasse se preocupar com os efeitos a longo prazo do endividamento ignorou substancial literatura acadêmica. Nem toda a dívida é criada igual e há um forte argumento para elevá-la, se o objetivo é financiar investimentos em infraestruturas altamente produtivas. Faz sentido levantar empréstimos para aumentar o crescimento a longo prazo, especialmente num ambiente de baixas taxas reais de juros. Um argumento similar pode ser usado em relação a gastos para melhoria do ensino.

Para além do investimento voltado para o crescimento, entretanto, a justificativa para um maior estímulo se torna mais sutil. Brad Delong e Larry Summers argumentaram que, numa economia reprimida, aumentos do endividamento a curto prazo podem se pagar, mesmo se os gastos não elevarem diretamente o potencial a longo prazo. Em contraste, Alberto Alesina e Silvia Ardagna acham que, numa economia com um governo grande e ineficiente, medidas de estabilização da dívida para reduzir o tamanho do governo podem ser expansionistas.

Admito ser um outsider neste debate. (A palavra “austeridade” não aparece nem uma vez no meu livro de 2009, com Carmen Reinhart, sobre a história das crises financeiras.) Meu senso geral, contudo, diz que ambas as posições são extremas. Nem austeridade pura nem estímulo keynesiano cru podem ajudar as nações a escapar das armadilhas do alto endividamento. Através da história, outras medidas, incluindo reescalonamento da dívida, inflação e várias formas de taxação de riqueza, tipicamente tiveram um papel significativo. É difícil ver como países europeus poderão evitar indefinidamente o recurso ao kit da dívida total, especialmente para reparar as economias frágeis da periferia da zona do euro. A garantia do Banco Central Europeu de “fazer o que for preciso” pode ser suficiente para ajudar a financiar maiores estímulos de curto prazo do que tem sido feito atualmente; mas a garantia do BCE não resolverá problema de sustentabilidade a curto prazo.

De fato, o BCE logo terá de se confrontar com o fato de que reformas estruturais e austeridade fiscal estão longe de ser uma solução completa para os problemas de endividamento da Europa. Se o BCE subestimar os riscos, sua credibilidade como regulador será muito afetada. Se for mais franco, há chances de alguns países da periferia terem dificuldades e precisarem de ajuda do Norte. Espera-se que o BCE seja franco. É tempo para um diálogo sobre o alívio da dívida de toda a periferia da zona do euro.

(*) Kenneth Rogoff foi economista-chefe do FMI e é professor de Economia e Políticas Públicas da Universidade de Harvard
© Project Syndicate