Fabio Giambiagi
O Globo
Brasil vive hoje um problema clássico identificado no capítulo 1 de qualquer manual de macroeconomia
O Brasil padece as consequências de um erro de diagnóstico. Em discurso no Senado, pronunciado em 3 de setembro de 1891, Rui Barbosa, com sua verve inconfundível, exclamava: “Eu quisera, nos meus antagonistas, senão justiça para comigo, ao menos lógica na ligação entre as suas premissas e as suas conclusões.” O velho Rui, se vivo fosse hoje e se encontrasse entre os críticos do governo, teria dificuldades em identificar tal “ligação entre as premissas e as conclusões” analisando a retórica que marca a defesa da política oficial.
José Dirceu, em seu esforço de fazer o contraponto ideológico com as teses da oposição e em tentativa de contestar os argumentos de um — na época — muito comentado texto de Fernando Henrique Cardoso, escreveu em julho de 2013, em artigo publicado na revista “Interesse nacional”, que “ao apostar na formação de um mercado interno robusto, o governo Lula mirou a colheita de frutos para todos, consubstanciados no chamado ciclo virtuoso de crescimento”. Ele dava eco assim às teses que, em plena fase de “tocar bumbo”, o Partido dos Trabalhadores tinha começado a propagar desde o começo do ano passado, teses essas que foram consagradas no documento partidário produzido pelo Instituto Lula denominado “O decênio que mudou o Brasil”, de fevereiro de 2013, com texto digno dos documentos da época do “realismo socialista” da União Soviética e desenho na capa onde Luiz Inácio Lula da Silva aparece com ares de líder visionário, ao lado da presidente Dilma Rousseff e sob uma bandeira brasileira. Na típica linguagem épica daqueles documentos, cujo clímax retórico foi a seção com título “O decênio glorioso”, o PT destacava que o “jeito petista de governar” tinha permitido ao país “enfrentar a crise global buscando fortalecer o seu modelo interno” seguindo “um caminho próprio, distinto do observado atualmente em outras economias, que permite ao país sair da crise global muito mais pujante”.
Na origem dos problemas que o Brasil vive hoje, mais do que o divórcio entre a retórica e a realidade, mais do que a contradição entre as premissas e as conclusões de que falava Rui Barbosa, encontra-se um erro de diagnóstico. O que o Brasil vive hoje é um problema clássico identificado no capítulo 1 de qualquer manual de macroeconomia.
Para que o leitor entenda melhor isso, vamos expor alguns números. Em 2007, o Brasil tinha a) superávit primário de 3,3% do PIB; b) superávit nas suas transações correntes com o exterior; c) um custo da sua mão de obra que tornava a economia brasileira competitiva; d) inflação rigorosamente na meta (4,5 %); e e) poupança doméstica de 18% do PIB e consumo de 80% do PIB. A economia ainda não se ressentia muito do desmonte sistemático das bases para o crescimento duramente construídas no período FH e reforçadas nos primeiros anos do governo Lula, quando a economia estava sob a direção do ministro Palocci. Sete anos depois, em 2014, após a vigência intensa da política de “pau na máquina”, com doses reforçadas de injeções de demanda e estímulos ao consumo, qual é o quadro? Vejamos o contraste: a) superávit primário de 1,5 % do PIB, com viés de baixa; b) déficit externo da ordem de US$ 80 bilhões; c) custo unitário da mão de obra na indústria 17% superior ao de 2007; d) inflação no teto de 6,5%; e e) poupança doméstica de 14% do PIB e consumo de 85% do PIB. O Brasil financiou uma festa — com poupança externa. Espantosamente, naquele mesmo documento antes citado, o PT afirmava que “o salário médio real dos trabalhadores cresceu acima dos ganhos de produtividade. Entre 2003 e 2010, por exemplo, o aumento acumulado da produtividade foi de 13,2% ante a expansão de 20,8% do salário médio real. Para cada aumento de 1% na produtividade, o salário médio real aumentava 1,6%” . A razão do espanto não é que os números sejam falsos, mas o contrário: que se utilize como exemplo um argumento que, se é compreensível do ponto de vista político, é lapidário em termos econômicos.
De fato, se quisermos entender por que o Brasil está flertando com uma crise, basta reler o parágrafo anterior: crescimento dos salários acima da produtividade é garantia de inflação e problemas de balanço de pagamentos. Exatamente o que estamos vendo.