quarta-feira, agosto 06, 2014

Não atirem nos mensageiros

Gustavo Loyola
Valor

Culpar a analista pelo mau humor é uma bobagem autoritária que não tem o condão de mudar a realidade


O governo Dilma parece não gostar de ouvir más notícias, pois vive atirando nos mensageiros. O episódio da análise divulgada pelo Banco Santander é emblemático. O documento apenas buscou descrever um movimento de mercado que têm ocorrido nos últimos meses: queda de Dilma nas pesquisas é boa notícia para as bolsas e para o mercado cambial; ocorre o oposto quando as intenções de voto na presidente sobem. Culpar a analista pelo mau humor dos mercados com o governo é uma bobagem autoritária que não tem o condão de mudar a realidade. O mensageiro não tem culpa pelas más notícias que traz.

O governo faria melhor se buscasse entender as razões do pessimismo generalizado em relação ao momento econômico e agisse para corrigir seus próprios equívocos. Ao tentar enterrar as críticas, as autoridades tentam fugir de um debate que é legítimo e necessário. Com isso, contribuem ainda mais para o pessimismo e a apatia que tomam conta dos agentes econômicos. A propósito, vale notar que, na mesmíssima semana do incidente com a análise do banco, a insuspeita FGV divulgou que, em julho, o índice de confiança da indústria havia caído pela sétima vez consecutiva, batendo em seu nível mais baixo desde março de 2009. 

Observem, caros leitores, que se trata da confiança da indústria e não do mercado financeiro. Corroborando o pessimismo, os dados do IBGE mostraram a produção industrial caindo 2% no segundo trimestre do ano frente ao primeiro.

Não é muito difícil entender as razões para as oscilações do mercado financeiro diante dos resultados das pesquisas eleitorais. Cresceu a percepção de que uma mudança da política econômica para melhor dependeria da troca do inquilino do Palácio do Planalto. Caso queira contrarrestar essa percepção, o governo poderia começar desde logo a mudar os rumos de suas políticas, com vistas a clarear o horizonte e buscar a retomada do investimento que vem seguidamente caindo nos últimos meses.

Como afirmamos algumas vezes neste espaço, os desequilíbrios acumulados nos últimos anos devem cobrar um preço caro em 2015. No campo da política fiscal, os resultados apresentados até aqui em 2014 confirmam as dificuldades que o governo tem para entregar um superávit primário minimamente aceitável, o que o obriga a recorrer a expedientes variados que, embora legais, têm fôlego curto e custos crescentes para a economia. O déficit primário obtido em junho foi o pior resultado da série histórica desse indicador. Continuando assim, o Brasil pode perder o grau de investimento no ano que vem, prejudicando ainda mais o desempenho econômico do país.

No mercado cambial, o crescimento da posição de derivativos cambiais vendidos pelo BC para moderar a depreciação do real cria receios sobre a futura capacidade de reação a uma reversão mais forte da política monetária norte-americano, com a subida dos juros externos. Uma depreciação mais acentuada da moeda brasileira traria pressões inflacionárias adicionais numa conjuntura em que as expectativas de variação do IPCA para 2015 já se aproximam do limite superior da banda de tolerância estabelecido no regime de metas para inflação.

Além disso, em uma questão especialmente sensível para o investimento industrial, cresce a conta a ser paga no futuro pelos consumidores de energia elétrica, tendo em vista a persistência da disparidade entre as tarifas e o custo da energia gerada pelas termelétricas. Outra "espada de Dâmocles" pendendo sobre a cabeça de consumidores e contribuintes é a necessidade de ajuste dos preços dos derivados de petróleo, haja vista o risco de inviabilização dos investimentos da Petrobras e de todo o setor de petróleo e gás. Repercussões negativas sobre a inflação parecem ser inevitáveis por conta da correção dos preços de energia e dos combustíveis.

Em tal situação, é razoável que as pessoas - que não são apenas as do mercado financeiro - tenham expectativas negativas, a menos que o governo possa lhes assegurar que as medidas corretivas necessárias estão sendo adotadas. Uma postura de negar a existência de problemas ou de empurrar com a barriga a sua solução somente contribui para aumentar as desconfianças que se refletem nas bolsas e ecoam nas análises de mercado.

Há vários exemplos na história recente de situações em que o governo virou o jogo das expectativas levando o mercado a se tornar o primeiro e mais eficaz arauto de boas notícias para economia. O próprio PT teve prova disso no final de 2002 e no início de 2003, após Lula ter divulgado a "carta aos brasileiros" e formado uma equipe econômica com credibilidade. Não me consta que os petistas tenham se queixado da onda de otimismo que, na ocasião, se disseminou rapidamente no mercado.

Finalmente, é interessante notar que a própria presidente Dilma tem admitido a necessidade de melhorar o diálogo com o empresariado. Mas ao fazê-lo com um tacape nas mãos, o máximo que conseguirá será um monólogo que dificilmente levará a uma reversão favorável das expectativas.