quarta-feira, setembro 17, 2014

Como os gastos com educação pesam no bolso dos brasileiros

Beatriz Souza
Exame.com

Crescimento da renda das classes mais pobres faz com que brasileiros gastem cada vez mais com educação

Divulgação/GOV MT 
Na maioria dos estados brasileiros rede pública de ensino
 está perdendo alunos para a privada

São Paulo - As famílias brasileiras estão gastando mais com a educação de seus filhos. Nos últimos 10 anos houve, sobretudo, um aumento nos gastos com educação básica, isto é, ensino fundamental e médio, que se deve ao crescimento de renda vivenciado pelas classes mais pobres na última década. 

A conclusão é da pesquisadora Maria Alice Remy, da Unicamp, que estudou as estruturas familiares e o padrão de gastos em educação no Brasil na primeira década dos anos 2000. O estudo usou dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, de 2002-2003 e de 2008-2009. 

Em seu trabalho, a pesquisadora destaca que este crescimento indica que o valor social da educação tem sido incorporado pela sociedade brasileira e que, à medida que a renda eleva-se nas áreas ou famílias mais pobres, maiores valores são direcionados para este tipo de serviço.

Veja a seguir alguns pontos que mostram como os gastos com a educação pesam no bolso dos brasileiros:

1. Brasileiros gastam cada vez mais com educação básica
Segundo a tese de mestrado da pesquisadora Maria Alice Remy, os gastos médios das famílias com ensino superior caíram 22% entre 2002-2003 e 2008-2009, enquanto que os gastos com educação básica tiveram alta de 3,5%. A alta na educação básica se deve sobretudo à migração de alunos de famílias mais pobres do ensino público para o ensino privado. 

2. O Distrito Federal é o estado que tem mais alunos na rede privada
Rio de Janeiro (34,5%), Santa Catarina (25,8%), São Paulo (24,5%) e Pernambuco (23,8%) formam o top 5 de estados com mais alunos na rede privada de ensino. Já Amazonas, Bahia, Roraima e Acre têm 10% ou menos de seus estudantes na rede privada. 

Estado
Rede Privada (%)
Distrito Federal
35,5
Rio de Janeiro
34,5
Santa Catarina
25,8
São Paulo
24,5
Pernambuco
23,8
Espírito Santo
23,5
Goiás
22,8
Paraíba
22,1
Sergipe
21,9
Espírito Santo
21,4
Paraná
20,8
Minas Gerais
20,6
Mato Grosso do Sul
20,4
Rio Grande do Norte
19,7
Piauí
17,6
Alagoas
17,6
Ceará
17,5
Amapá
17,5
Rondônia
16,8
Tocantins
16,7
Mato Grosso
15,3
Pará
14,7
Maranhão
11,7
Amazonas
10,3
Bahia
10
Roraima
7,9
Acre
7,2
Brasil
21,7


3. Quanto maior a escolaridade do chefe da família, maior o gasto com educação
Famílias chefiadas por pessoas mais escolarizadas e com maior renda tendem a gastar mais com educação. No entanto, ao longo do tempo essa diferença tende a diminuir e famílias chefiadas por pessoas mais escolarizadas passam a registrar gastos mais próximos aos das famílias chefiadas por pessoas menos escolarizadas.

4. Dependendo da região em que moram, as famílias brasileiras estão aumentando ou diminuindo seus gastos com educação
Nos estados das regiões Sudeste, Sul e Centro-oeste, o gasto das famílias com educação diminuiu entre 2002 e 2009. Já nas regiões Norte e Nordeste, as famílias estão gastando mais.

5. Sudeste tem o maior gasto por aluno; Norte o menor 

Regiões
2002/2003
2008/2009
Norte
R$ 20,73
R$ 27,64
Nordeste
R$ 29,40
R$ 32,68
Sudeste
R$ 105,68
R$ 94,56
Sul
R$ 74,12
R$ 68,44
Centro-oeste
R$ 68,18
R$ 57,94


6. Quase metade dos alunos da rede privada estão no Sudeste
Cerca de 45% dos alunos de escolas particulares estão divididos entre São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. A região Nordeste está na outra ponta e tem apenas 4,2% dos alunos da rede privada.

7. Nordeste gasta mais com educação básica; Sudeste com superior
As famílias da região Nordeste são as únicas que concentram a maior parte de suas despesas com educação no nível básico de ensino. Isso pode ser explicado pelo fato de a região ter uma população mais jovem, daí um gasto maior com os primeiros ano de educação. Já em regiões com a população mais envelhecida, como o Sudeste e Sul, as despesas são maiores no nível superior de ensino.

8. Cursos extras, como de idiomas, viram prioridade
É interessante notar que entre o começo e o final da década de 2000, as famílias foram progressivamente diminuindo os gastos com o ensino básico e superior e aumentando as despesas com outros cursos, como os de idiomas.

2002-2003
Norte  (%)
Nordeste (%)
Sudeste  (%)
Sul (%)
Centro-oeste (%)
Cursos regulares
26,8
40,6
29,3
23,9
25,4
Curso superior
22,2
19,6
34,7
38,8
41,2
Outros cursos e atividades
17,5
13,5
20,1
20,3
15,8
Livros didáticos
6,6
8,6
3,9
3,4
3,8
Artigos escolares
19,4
10,6
5,3
7,4
8,9
Outros
7,5
7,2
6,8
6,3
4,9
2008-2009
Norte  (%)
Nordeste  (%)
Sudeste  (%)
Sul (%)
Centro-oeste (%)
Cursos regulares
18,5
31,9
27
20,3
19,9
Curso superior
30,3
26,1
31,4
35,5
38,8
Outros cursos e atividades
26,9
19,6
25,1
24,8
20,6
Livros didáticos
4,1
7
3,9
3
3,7
Artigos escolares
15
10,5
6,6
8,8
10,8
Outros
5,2
4,9
6
7,5
6,2


9. A escola pública perde alunos e as privadas ganham 
Na primeira década dos anos 2000, na maioria dos estados ocorreu uma redução das matrículas no ensino público para uma expansão do ensino privado. O Amazonas, no entanto, vive um movimento inverso: há uma diminuição das matrículas na rede privada acompanhada pela expansão do número de alunos na rede pública.

Rede/ Matrículas
2002-2003
2008-2009
Privada
20,2%
21,7%
Pública
79,8%
78,3%