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Decisão é mais do que estratégia para evitar ataques dos adversários: propostas do Planalto não se encaixam com as defendidas pelo partido
(Pedro Ladeira/Folhapress)
A presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição,
concede entrevista no Palácio da Alvorada, em Brasília
Mais do que à estratégia de evitar dar "munição" aos adversários para críticas, a decisão da presidente-candidata Dilma Rousseff (PT) de não divulgar seu programa de governo se deve a uma crise interna com o PT. É o que informa reportagem desta quinta-feira do jornal Folha de S. Paulo. Alas do partido defendem propostas contrárias às do Planalto, como a revisão da Lei de Anistia, o fim do fator previdenciário e a redução da jornada de trabalho.
Embora nunca tenha se posicionado oficialmente sobre o tema, durante todo seu mandato Dilma tem evitado a votação, pelo Congresso, de proposta que reduz a jornada de trabalho. Também não está disposta a abrir mão do fator previdenciário, a menos que seja instituída idade mínima para aposentadoria. Quanto à Lei de Anistia, a presidente teme, segundo a reportagem, abrir uma crise com as Forças Armadas. De acordo com o jornal, quando soube dos pontos defendidos pela legenda, Dilma decidiu barrar a divulgação de seu programa de governo.
A campanha da petista adotou a estratégia de não publicar um documento e de "dosar" na TV a apresentação das suas propostas. Além do temor de desgaste com o partido, a avaliação do comitê é de que apresentar neste momento um texto justificando as políticas adotadas nos últimos anos e apresentando um plano para o próximo mandato poderia dar munição aos adversários e abrir um flanco sobre o qual eles se debruçariam pelos próximos dias. Foi o que se deu com Marina Silva, candidata do PSB à Presidência. A ex-senadora se tornou alvo de ataques em razão das erratas que teve de divulgar em relação ao plano revelado em 29 de agosto - a principal delas retirava do texto causas caras ao movimento gay.
Dilma deve se encarregar de assumir compromissos pontuais, a exemplo do que fez quando defendeu a criminalização da homofobia. Ela mesma já disse recentemente que não haverá a divulgação de uma redação unificada de seu programa de governo, que nas palavras dela "será moderno e estará na televisão". Desde o início do processo eleitoral, a campanha petista trabalha em 25 textos setoriais que embasarão a defesa das políticas adotadas nos governos do PT e também para as promessas que serão apresentadas.
******* COMENTANDO A NOTÍCIA:
Inicialmente quando cobrada sobre plano de governo, Dilma ofereceu seu primeiro mandato como vitrine. Como não colou, até porque seu governo foi e é medíocre, agora surge com a versão de "divergências" entre a candidata e o partido. Nada disso. São duas razões primordiais para esconder o tal plano de governo: no fundo, Dilma não tem nada a oferecer além do que nos apresentou desde janeiro de 2011. Isto, para dizer pouco, é insuficiente para o eleitorado. E, segundo, e talvez a maior razão, em não apresentando plano nenhum, Dilma também não se compromete com coisa alguma, podendo, se reeleita, fazer o que bem entender. Em consequência, também, não se desgasta tendo que explicar cada meta projetada.
Reparem o quanto a economia vem degringolando no governo Dilma: crescimento ínfimo, inflação acima da meta o tempo todo e juros no alto. Qual a programação prevista para debelar este fiasco? Dilma se vale do direito de permanecer calada. A indústria vai afundando? Mais uma vez, a prerrogativa de permanecer calada. As contas estão maquiadas para esconder o desequilíbrio fiscal permanente? Dilma fica muda. Investimentos em queda? Silêncio absoluto.
Ou seja, para os problemas atuais, ou Dilma não tem mesmo solução - e é a melhor das respostas - ou, se tem, prefere não oferecê-las ao eleitorado por temer a reação negativa. Assim, escolhe o silêncio, escondendo seu plano de governo, e prefere promover um festival de baixarias, indignidades, calúnias e uma gritaria geral para abafar a voz dos críticos sobre os escândalos e desmandos na Petrobrás e demais estatais, a corrupção colossal, a desigualdade estagnada, a economia deteriorada, a inflação desmedida e os serviços públicos em total abandono. Em resumo, o que Dilma quer é mesmo um cheque em branco para continuar a fazer o que bem entender. E isto é ruim para o país.
