domingo, setembro 21, 2014

Setor de petróleo critica modelo atual de exigência de conteúdo local na exploração

Rennan Setti e Ramona Ordoñez
O Globo

Segundo IBP, obrigação está afetando competitividade de empresas brasileiras

Presidente do IBP, João Carlos de Luca

RIO - Apesar das enormes reservas, a indústria de petróleo do Brasil está ficando para trás na competição com mercados atraentes como o Ártico, os EUA e o México, alertou nesta segunda-feira o Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP). Entre os problemas que afetam a competitividade do país, na visão do setor, está a atual exigência de conteúdo local como contrapartida aos investimentos na área. O presidente do IBP, João Carlos de Luca, defendeu uma "adequação" na obrigatoriedade, sem citar propostas concretas.

— A ideia do conteúdo local é muito boa. Mas o volume de investimentos sofreu uma modificação muito grande, e enquanto os investimentos e a demanda cresceram dez vezes, a indústria local não expandiu dez vezes. Estamos trabalhando na elaboração de soluções para esse problema, como o estímulo a clusters— disse Luca, no evento Rio Oil & Gas, no Riocentro, Zona Oeste do Rio.

Durante o mesmo evento, a diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Magda Chambriard, defendeu a exigência do conteúdo local e também de investimentos em pesquisa e desenvolvimento, como contrapartida pela exploração do petróleo.

‘ESTAMOS FORA DA AGENDA MUNDIAL’
O IBP lançou no evento uma "agenda prioritária" com áreas que, na opinião das empresas, precisam de ajustes. O documento foi enviado aos principais candidatos à Presidência. No capítulo sobre a exigência de conteúdo local, o texto diz que "o desafio é investir na criação de produtos e serviços que atendam às novas demandas do setor, sem deixar de garantir a competitividade internacional, tanto sob o ponto de vista de preço e qualidade como de prazo de entrega". Para o instituto, "o modelo vigente de conteúdo local deve ser continuamente aperfeiçoado para refletir os atuais desafios e superar os gargalos no setor".

— Hoje, uma empresa que tenta fazer investimentos e busca conteúdo local, vai ter problemas — afirmou Milton Costa Filho, secretário-geral do IBP e ex-diretor da Petrobras no México, que falou sobre a posição do Brasil no cenário mundial. — Estamos fora da agenda mundial. Recentemente, estive em três eventos internacionais na área do petróleo e o Brasil não foi citado nenhuma vez. Fala-se do Ártico, do potencial das fontes não-convencionais dos EUA e do México. Estamos tentando responder isso aí. Temos um potencial enorme, poderíamos estar contribuindo para a sociedade, mas temos gargalos.

PRÉ-SAL: ‘OPERADOR ÚNICO NÃO É BOM NEM PARA PETROBRAS’
O IBP também criticou a exigência da Petrobras como operador único do pré-sal. Segundo Luca, isso "não é bom para indústria nem para o operador único.“

— Por que a Petrobras é obrigada por lei a explorar uma área ruim do pré-sal? O pré-sal não é risco zero. Se isso pudesse ser flexibilizado, daria mais possibilidades de a ANP fazer mais licitações sem a necessidade de gerar encargos à Petrobras — afirmou.

O presidente do IBP lamentou os entraves que as investigações sobre os contratos da Petrobras têm causado para o setor, como O GLOBO mostrou no domingo:

— Ninguém pode negar as dificuldades impostas por esse processo, que desvia a atenção da empresa. A empresa está tomando sua medidas de processo interno, e isso tem impacto na cadeia.

Outra demanda do setor é a estipulação de calendários de licitações de áreas do petróleo. Segundo o IBP, a imprevisibilidade na realização de rodadas dificulta o planejamento das empresas do segmento. No Rio Oil & Gas, O Secretário de Petróleo, Gás Natural e Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia (MME), Marco Antônio Almeida, anunciou nesta segunda-feira que a 13ª rodada de licitações de áreas de petróleo será realizada no primeiro semestre do ano que vem.

— Tomara que fosse um calendário anual, mas não é disso que estamos falando. Estamos falando apenas que deveria ter periodicidade. Uma empresa que participa de uma licitação em um ano não sabe quando será o próximo. Assim, não consegue decidir se mantém sua equipe no país, se expande a produção etc. — criticou Luca.