sexta-feira, setembro 26, 2014

Inflação e ‘pibinho’ ameaçam avanços sociais

O Globo
Editorial

A ilusão de que se pode prosseguir com desemprego baixo e renda menos concentrada se desfaz quando são avaliados os resultados da recente Pnad

O erro cometido pelo IBGE na compilação dos dados, felizmente corrigido a tempo depois de detectado por observadores externos ao órgão, não invalida a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) como um retrato que possibilita avaliar a evolução anual de vários indicadores sociais e econômicos do Brasil.

A Pnad, como retrato de 2013, é animadora, por exemplo, quando mostra cada vez mais brasileiros com acesso às comodidades da vida moderna. Fogão, geladeira e TV estão praticamente em todos os domicílios (é bem pequeno o percentual de residências sem ligação com a rede elétrica). A telefonia, especialmente a móvel, também se universalizou. Mais da metade dos domicílios tem conexão com a internet (nessa conta não estão incluídos os acessos por smartphones, muito usado por jovens da classe C ). E 46,1% das residências contam ao menos com um automóvel.

Há avanços tímidos nas redes coletoras de esgoto; no caso do abastecimento de água e do recolhimento de lixo os resultados são mais positivos.

Na educação, o esforço para que as crianças comecem a frequentar escolas a partir de quatro anos já é relevante nas estatísticas.

É inevitável que tais resultados sejam usados nas campanhas eleitorais ao sabor dos interesses da cada candidato, embora o mais importante da Pnad, nos indicadores sociais, seja a trajetória de longo prazo, para a qual contribuíram diversos governos, na redemocratização.

Especificamente no campo econômico, a Pnad deu alguns sinais de alerta. Com abrangência nacional, a pesquisa detectou já em 2013 um desemprego mais elevado que o observado nas principais regiões metropolitanas (que serve de base para o indicador mensal do próprio IBGE que mede a ocupação no país). Não houve mudança substancial na distribuição de renda, mesmo com aumento do rendimento médio do trabalho. Nesse período, como foram mantidos todos programas do governo que buscam reduzir a desigualdade, se os indicadores permaneceram praticamente estáveis isso se deveu, sem dúvida, a uma conjuntura de mais inflação e baixo crescimento econômico.

Esses sinais de alerta desarmam a tese de que o país conseguirá sustentar, ao longo do tempo, empregos e outros avanços sociais — como uma melhor distribuição de renda — sem que isso dependa do comportamento dos preços e do ritmo de atividade econômica. É uma ilusão sem comprovação estatística, pois a Pnad mostrou exatamente que há um risco de deterioração.

Como todos os atuais candidatos prometem um novo governo a partir de 2015, a crise da economia brasileira, caracterizada por inflação no limite de tolerância da meta e um ambiente de crescimento minguado, não pode ser menosprezada.