Tribuna da Internet
Vicente Nunes, Correio Braziliense
Se havia alguma dúvida sobre o fracasso da política econômica do governo Dilma Rousseff, ela foi enterrada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um órgão extremamente técnico que o Palácio do Planalto tenta enfraquecer para não ser confrontado com seus erros. A desigualdade social aumentou pela primeira vez em 12 anos. Os 10% mais pobres da população — boa parte deles, eleitores do PT — viram a renda crescer menos que a dos 10% mais ricos no ano passado.
Esse quadro desolador foi sacramentado pelo governo, que decidiu brincar com a inflação, apostando que taxas um pouco mais altas incrementariam o crescimento econômico. O que se viu, contudo, foi exatamente o contrário. A disparada dos preços corroeu o poder de compra das famílias, fato determinante para levar o país à estagnação e à elevação do desemprego. Segundo o IBGE, o índice Gini, que mede a concentração de renda, passou de 0,496, em 2012, para 0,498 no ano passado. Enquanto o rendimento médio dos trabalhadores mais bem pagos avançou 6,4%, o ganho dos que estão na base da pirâmide saltou 3,5%. Nem mesmo na crise mundial de 2008 isso aconteceu.
Os petistas sempre se gabaram de terem reduzido a desigualdade social no país. Mas desde que Dilma tomou posse, em 2011, a marca do retrocesso ficou latente. Com a inflação insistentemente próxima ao teto da meta, de 6,5%, e a economia perdendo força, o fosso que separa ricos e pobres, num primeiro momento, parou de diminuir, voltando a aumentar em 2013. Num país em que a hiperinflação roubou duas décadas de crescimento, jogou milhões de pessoas na miséria e criou uma das sociedade mais desiguais do planeta, acreditava-se que a lição tivesse sido apreendida. Pelo visto, não foi.
Os mais pobres não têm como se protegerem da inflação. Quando ela chega, o estrago é cruel. Os trabalhadores com renda maior, no entanto, podem garantir o patrimônio aplicando as sobras de recursos no mercado financeiro. Ainda que sintam o impacto da carestia, ele é minimizado pelas altas taxas de juros pagas no Brasil. Não há pecado nisso. Cada um se defende como pode.
O erro está em o governo permitir a inflação alta por tanto tempo. Dos 44 meses da administração Dilma, em 12, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou acima do limite de tolerância. O que mais assusta é que, em 2014, os resultados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad) podem ser ainda piores. Não se pode esquecer que a economia está em recessão, a inflação continua no teto da meta e os juros subiram, afetando ainda mais o poder aquisitivo das famílias, que ostentam os maiores níveis de endividamento da história.
DESEMPREGO
O aumento da desigualdade social, no entender dos economistas, está relacionada, também, ao esgotamento do mercado de trabalho. Como, até o fim do governo Lula, o Brasil vinha crescendo bem acima de seu potencial, a mão de obra mais qualificada se esgotou. Para suprir as vagas existentes, as empresas foram obrigadas a contratar trabalhadores menos preparados, pagando salários menores. Menos escolarizado, esse contingente não conseguiu exigir reajustes muito acima da inflação.
DESAFIOS
O retrato apresentado pela Pnad aumenta o desafio do próximo governante, seja quem for o vencedor das eleições de outubro próximo. Além de derrubar a inflação e de retomar o processo de crescimento econômico, o futuro presidente terá que melhorar substancialmente a qualidade da educação, para ampliar a produtividade do país. Só assim, a riqueza voltará a ser mais bem distribuída. Ou seja, acabou o tempo de experimentalismos na economia.