quinta-feira, setembro 11, 2014

Na Central do Brasil, só quem dorme na fila consegue o seguro-desemprego

Nice de Paula
O Globo

Postos distribuem 40 senhas por dia a quem busca o benefício

Adriana Lorete 
Noite da fila. Helena e Waldir chegaram à Central às 20h da véspera


RIO — Para trabalhadores que têm direito ao seguro-desemprego — demitidos sem justa causa após seis meses de trabalho com carteira assinada — não basta cumprir os requisitos previstos na legislação para receber o benefício. Ao menos no Rio, a tarefa exige muitas idas e vindas aos postos de atendimento do Sistema Nacional de Emprego (Sine) e do Ministério do Trabalho e horas de espera. O atendimento só é garantido mesmo a quem se dispõe a dormir na fila.

Dois meses depois de denunciar o problema, O GLOBO voltou ao Poupa Tempo da Central do Brasil na manhã da última quinta-feira e encontrou apenas duas mudanças: o total de senhas de atendimento distribuídas foi elevado de 30 para 40 e começa a surgir ali uma economia paralela, que se alimenta do sacrifício do trabalhador que precisa do seguro-desemprego.

— Cheguei às oito da noite, como todos que estão nos primeiros lugares. Pagamos R$ 3 cada um para alugar cadeira. Quem ia aguentar ficar em pé até agora (8h)? Passamos a noite toda, tomamos chuva, é humilhante, mas se não fizesse isso não conseguiria — conta a garçonete Helena de Souza, de 38 anos, que já tentava dar entrada no auxílio há quase três meses.

O problema acontece porque, como em vários outros postos, há um número restrito de senhas. Quem não consegue uma tem que voltar outro dia. O agendamento pela internet não funciona e, se o pedido não for feito em até 120 dias após a demissão, o benefício é perdido.

— É uma falta de consideração com o trabalhador. Parece que ficam criando dificuldades para ver se a gente desiste de receber o seguro para ficarem com nosso dinheiro para outra coisa — disse o servente de obra Waldir Rodrigues da Silva, de 50 anos.

‘NÃO TINHA QUE PASSAR POR ISSO’
Como Helena e os outros primeiros da fila, Silva passou a noite na Central do Brasil.

— Tomamos chuva, ficamos expostos aos usuários de crack e pagamos pela cadeira. Pelo menos a gente está criando emprego para os caras que alugam.

Foi o que comprovaram, na prática, o armador Antônio Wilson, de 43 anos, o servente de obras André Luiz da Silva, de 29, e o ajudante Carlos Henrique Castro, de 21. Eles chegaram entre 5h e 6h e não pegaram senhas. O posto abre às 8h, e às 8h30m o atendimento já estava encerrado.

— Vim de Japeri, cheguei às 5h, mas acabou a senha. “Acabou, volta outra dia”. Se você não tem o dinheiro da passagem, se vai deixar de fazer um bico, problema seu — reclamou André Luiz.

No posto pelo segundo dia seguido, Antônio Wilson era o retrato da indignação:

—Vou ter que vir no dia anterior. É absurdo, é falta de respeito. Queria estar trabalhando e não passando por esta humilhação. Trabalho em obra do metrô, me arrasto em buraco, me arrisco no subterrâneo para fazer algo importante para a cidade, não tinha que passar por isso.

As secretarias estaduais do Trabalho e de Desenvolvimento Econômico, que gerenciam os postos do Sine e Poupa Tempo, informaram que o sistema de processamento do seguro-desemprego é responsabilidade do Ministério do Trabalho e da Dataprev e, por vezes, sai do ar, dificultando o atendimento. As secretarias informaram ainda que, desde ontem, os trabalhadores também podem dar entrada no pedido do seguro aos sábados, das 9h às 13h.

‘INSTABILIDADES OCASIONAIS’
O Ministério do Trabalho informou que “continua trabalhando para a solução desses problemas” e que na sexta-feira foi publicada a contratação de 415 novos agentes administrativos para ajudar no atendimento ao público. E acrescentou que o agendamento eletrônico está em processo de implementação e que “está em permanente contato com a Dataprev, responsável pela gestão do sistema de emissão do seguro-desemprego, para a solução das instabilidades ocasionais”.