Editorial
Folha de São Paulo
A ínfima quantia de R$ 0,50 já significou, para a família de Ronaldo e Sueli Dumont, a diferença entre ter ou não ter um pedaço a mais de toucinho na panela do feijão. Corria o ano de 2005 quando o jornalista Fernando Canzian encontrou o casal pela primeira vez.
Moradores de uma favela em Jaboatão dos Guararapes, cidade na zona metropolitana do Recife, os Dumont –assim como Pedro e Micinéia Silva, seus vizinhos– foram desde então visitados anualmente pelo repórter desta Folha.
Ao longo dos últimos dez anos, a história desses dois casais veio a constituir ilustração eloquente dos efeitos do programa Bolsa Família, do qual continuam a se beneficiar.
Os Silva e os Dumont conheceram melhora significativa em seus padrões de vida. Do piso de cerâmica aos eletrodomésticos, das paredes de alvenaria à alimentação, é palpável o progresso assegurado pelos recursos mensais que o programa oferece a cada membro da família em idade escolar.
Tanto quanto o aspecto material, haveria também a destacar a importância psicológica de iniciativas desse tipo. Sabendo-se do peso de desesperança que a miséria traz consigo, não seria exagero dizer que o Bolsa Família abre perspectivas de maior realização pessoal para os beneficiados.
É o caso de Vanessa Silva, 13, que sonha em ser médica, ou de seu irmão Luan, 16, que gostaria de ser empresário. Ter presenciado um mínimo de progresso material na vida familiar contribuiu, sem dúvida, para acender tais ambições.
É nesse ponto, porém, que os limites do Bolsa Família se delineiam com clareza. O programa obteve sucesso em manter na escola crianças que, de outro modo, seriam entregues à geena do trabalho mal remunerado ou da mendicância.
Ocorre que a educação oferecida pelo Estado brasileiro se mostra incapaz de atender às expectativas acalentadas por jovens como Vanessa e Luan. São consternadoras as deficiências registradas no rápido teste a que, anualmente, a reportagem da Folha submetia as crianças das duas famílias.
O programa certamente não se constitui, como ainda se afirma preconceituosamente, em prêmio para a inatividade e o comodismo, e 3,1 milhões de famílias dele se emanciparam voluntariamente.
Correspondendo a 2,8% do Orçamento federal, os R$ 170 que em média destina a cada família não substituem os R$ 788 de um salário mínimo que, em sua maioria, a população mais pobre do país aspira a receber honestamente.
A uma deficiência educacional crônica se somam, contudo, notícias sombrias no plano do investimento e da geração de emprego, e a questão da porta de saída para o Bolsa Família nunca foi tão dramática como agora.