domingo, julho 26, 2015

Para economistas, governo subestima crescimento da dívida pública

Isabel Versiani
Folha de São Paulo

Na contramão do estimado pelo governo, economistas do mercado não veem perspectiva de a dívida pública interromper sua trajetória de crescimento ao longo do mandato da presidente Dilma Rousseff.
A avaliação é que o fraco desempenho da atividade econômica e o engessamento dos gastos públicos vão manter a relação dívida/PIB em alta, chegando a um patamar próximo a 70% até o final de 2018.

Ao anunciar nesta semana a redução das metas de superavit primário a serem perseguidas pelos próximos quatro anos, a equipe econômica disse que dívida se estabilizaria a partir de 2017 e começaria a recuar no ano seguinte, quando chegaria a 65,6% do PIB. O endividamento fechou 2014 em 58,9% do PIB.




"Me parece um pouco otimista, a impressão que eu tenho é que [a relação dívida/PIB] pode terminar 2018 acima de 70%", afirmou o economista Marcos Mollica, sócio da Rosenberg Investimentos.

Diante desse cenário, ele prevê que o país perderá o selo de bom pagador (grau de investimento) dado pelas agências de classificação de risco no primeiro semestre do ano que vem.

O economista afirma que a equipe econômica vive um "impasse" diante da impossibilidade de promover cortes significativos nos gastos e da retração econômica, que derrubou as receitas.

Para Mollica, as medidas de ajuste promovidas este ano foram "paliativas" e reformas mais profundas só serão viáveis com um novo governo e um projeto "mais sólido".

Em relatório, os bancos Itaú Unibanco e BNP Paribas também estimaram que a dívida pública vai superar os 70% nos próximos anos.

"Na ausência de medidas adicionais, a tendência é de baixa no superavit primário, em função principalmente do aumento nos gastos da previdência", afirmou o economista Luka Barbosa, do Itaú.

Para José Francisco Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, a economia entra em um círculo vicioso, em que o governo é obrigado a buscar novas fontes de arrecadação, aprofundando a recessão.
"Você só vai sair disso se a inflação cair e você conseguir reduzir juro", afirmou.

Levando em conta as projeções do próprio governo para o superavit primário até 2018, que considera otimistas, Gonçalves calcula que a dívida fechará 2018 em 68,7% do PIB.

Ele disse ver "com crescente preocupação" a perspectiva de o país perder o grau de investimento. "Acho difícil que não aconteça."