Raphael Martins
EXAME.com
Divulgação/Eletronuclear
Usina Angra 3 em construção:
consórcio teria rendido 4,5 milhões de reais em propina ao presidente da Eletronuclear
São Paulo – A manhã desta terça-feira ficou marcada pela deflagração da 16ª fase da Operação Lava Jato, a primeira etapa de investigações sobre o esquema de corrupção no setor público para além dos limites da Petrobras. Veja um raio-X de todas as fases da Lava Jato.
Desta vez, a ação da Polícia Federal, batizada de Radioatividade, tem a Eletronuclear como alvo, subsidiária de geração de energia nuclear da Eletrobras.
Estão sob investigação contratos das mesmas empreiteiras envolvidas no esquema de lavagem e desvio de dinheiro da Petrobras, mas agora em obras da usina nuclear Angra 3.
Quem são os executivos presos nesta terça-feira?
Entre os presos nesta fase estão o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente licenciado da Eletronuclear, e Flávio David Barra, presidente global da Andrade Gutierrez Energia. Eles foram detidos em regime de prisão temporária válido por cinco dias, com possibilidade de extensão para a preventiva.
Outros cinco executivos de diversas empresas foram conduzidos à PF para prestar depoimento. São eles: Renato Ribeiro Abreu, da MPE Participações e Administração, Fábio Andreani Gandolfo, da Odebrecht, Petrônio Braz Junior, da Queiroz Galvão, Ricardo Ouriques Marques, da Techint Engenharia, e Clóvis Renato Peixoto Primo, da Andrade Gutierrez.
Agência Câmara
Othon da Silva, presidente licenciado da Eletronuclear
Quanto foi movimentado em propina?
Em coletiva de imprensa concedida na manhã desta terça-feira, o procurador da Polícia Federal Athayde Ribeiro Costa afirmou que as investigações apontam que o presidente da Eletronuclear recebeu 4,5 milhões de reais em propina para obras da empresa de 2009 a 2014, tudo através de empresas intermediárias.
Quais empresas podem estar envolvidas?
Estariam envolvidas UTC, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa,Queiroz Galvão, Techint e EBE, empresas que formavam o consórcio responsável pelas obras de Angra 3, chamado Angramon. Segundo o procurador, há indícios de que a Engevix também teria feito pagamento de propina.
O que levou a PF a investigar a Eletronuclear?
Dois episódios foram cruciais para o envolvimento da Eletrobras nos autos da Lava Jato. A primeira pista de envolvimento de novas estatais no esquema veio a público em depoimento do ex-diretor de abastecimento da petroleira Paulo Roberto Costa à CPI da Petrobras em dezembro de 2014. “O que acontecia na Petrobras, acontece no Brasil inteiro — nas rodovias, nas ferrovias, nos portos, nos aeroportos, nas hidrelétricas. Isso acontece no Brasil inteiro. É só pesquisar”, disse à comissão.
O principal indicativo, no entanto, foi a delação premiada de Dalton Avancini, ex-presidente da Camargo Corrêa. Preso inicialmente porque a empreiteira fazia parte do grupo que burlava licitações de grande obras da Petrobras, foi ele quem acusou o almirante Othon Luiz Pinheiro de recebimento de propina em contratos do consórcio Angramon, enquanto ocupava o cargo de presidente da estatal. A notícia fez com que o almirante se afastasse do cargo.
Soma-se a isso, a apreensão de uma planilha que, segundo o juiz Sergio Moro, continha dados sobre cerca de 750 obras públicas nos mais diversos setores de infraestrutura com o doleiro Alberto Youssef.
Divulgação/Eletronuclear
Funcionário da Andrade Gutierrez em obra da Angra 3
Como isso afeta os negócios da empresa?
A empresa agora deve seguir o mesmo caminho da Petrobras na investigação dos esquemas de corrupção. A Eletrobras também tem ações abertas na Bolsa de Nova York. Depois da delação de Avancini, a estatal anunciou que não publicaria seu balanço nos EUA devido ao envolvimento na Lava Jato, o que indica que os números precisariam de revisão após desvios.
Depois do mesmo processo de auditoria, a Petrobras demorou cinco meses para publicar seu balanço nos EUA e estimou perdas de mais de 6 bilhões de reais apenas com corrupção.
O que vem a seguir?
Além das prisões, mandados de busca e apreensão atingiram executivos e funcionários das empresas Eletronuclear, Aratec Engenharia Consultoria e Representações. Segundo a PF, serão feitas buscas nas salas de executivos e verificados os e-mails corporativos.
A Eletrobras ainda não se pronunciou sobre o assunto.


