Adelson Elias Vasconcellos
Desde de sua reeleição, Dilma Rousseff parece mergulhada num inferno astral de alta voltagem. De fato, o Brasil que se seguiu, vem se desfazendo como se o castelo erguido desde 2003 tivesse alicerces de areia.
Não foi por falta de aviso, claro. Desde 2006, estamos alertando para o fato de o governo aumentar perigosamente as despesas muito além de suas receitas. Crescem acima da inflação, acima do próprio PIB. Não há milagres em situações assim. De um lado, você começa cortando investimentos, o que já vem sendo feito há alguns anos. Não há PAC que dê jeito. Depois, você corta em programas e serviços essenciais como saúde, segurança, educação. Mesmo aqui há, contudo, limites para a tesourada. Como o governo teima em não ver sua própria adiposidade, seus excessos, suas extravagâncias, seu desperdício voluptuoso, acaba que ele começa a fase dos empréstimos e, quando se dá conta, lá estamos nós comprometendo boa parte do orçamento apenas para bancar o serviço da dívida. Com o orçamento cada vez mais comprimido, poupa-se pouco, cada vez menos e a dívida começa a se espichar mais e mais.
Tudo isso vem sendo dito de forma clara, explícita, sem espaços para contestação. Porém, o governo Dilma mergulhou numa fantasia. Acha que o Brasil de sua propaganda é o Brasil real. Não é. Durante algum tempo, boa parte do eleitorado mergulhou nesta sonolência, em que sonhava viver no Brasil do marketing.
Mesmo antes de começar a campanha eleitoral de 2014, a economia brasileira já se arrastava, cambaleando sem rumo, sem um projeto minimamente coerente com a sua realidade e necessidade. Basta ver o quanto o PIB, desde 2011, vem caindo ano a ano. Nem com as maquiagens e pedaladas promovidas por sua equipe econômica era possível esconder o fato de que, em 2015, o país precisaria apertar o cinto. Todas as nossas dificuldades atuais estavam plantadas desde 2010, quando Dilma se elegeu pela primeira vez. Para que isto acontecesse, Lula abriu as torneiras da gastança desenfreada, o que exigiria de um gestor público que o sucedesse uma freada no primeiro ano. Dilma, subiu nas tamancas e disse que ajuste fiscal era coisa do passado, coisa de tucano. E mandou ver nos quatro anos seguintes.
As tais pedaladas fiscais já eram sintoma de que o governo buscava, na maquiagem e no improviso, esconder do país a verdadeira face de uma economia desajustada, sem base para crescer, sem oxigênio para enfrentar os desafios de um país continental.
Nas manifestações de junho de 2013, pela primeira vez, viu-se um povo que começava a despertar de seu torpor, deparando-se com uma realidade muito diversa do discurso oficial.
Dilma, teimosa como mula empacada, passou quatro anos justificando o baixo crescimento e a inflação fora do centro da meta, com uma crise externa que já não existia. Nesta edição, o leitor pode confrontar: a exceção de Brasil, Argentina, Venezuela e Rússia, o restante do mundo vai bem, obrigado. Todos estão crescendo, uns mais, outros menos, mas crescendo. Então, que diabos de crise externa é essa que atinge apenas os medíocres?
Vendo que a paranoia da tal “crise externa” não colava mais, Dilma, nesta semana, na reunião com os governadores, mudou o discurso. Agora, é o preço das commodities e o câmbio os vilões das nossas dificuldades. E, de novo, Dilma parece desconectada do país que imagina governar. Primeiro, mesmo com os preços em queda das commodities, não fosse pela agropecuária que há anos segura o rojão, e nós já estaríamos mergulhados em profunda recessão. Quanto ao câmbio, coitado, pode até estar acima do “ideal”, mas isso se dá pelo risco Brasil. Na verdade, os governos petistas navegaram muito bem num câmbio irreal, ou o amigo acreditava que o dólar valia mesmo R$ 1,56 como chegou a acontecer? Perguntem para os industriais de manufaturados o que lhes aconteceu com este dólar maquiado!!!
Depois de tanta mediocridade, plantada com esmero durante muitos anos de desmandos e improvisos, uma hora a conta chegaria e chegou. E, como acontece sempre, adivinha quem paga a fatura? E quem sofre mais com o aperto, senão os mais pobres?
Se formos observar nossos indicadores econômicos, perceberemos que o país voltou à fase pré-real. E o que é pior: sem o comando necessário para livrar-nos do mal, amém.
Dilma mentiu o quanto pode na campanha, fez o diabo e mais um pouco para ganhar a reeleição. Não estava nos seus planos ter de enfrentar três crises simultâneas: econômica, política e de credibilidade. A saída seria aplicar um duro ajuste fiscal, a começar pela estrutura mastodôntica do próprio Palácio do Planalto e levar adiante um plano de desenvolvimento mínimo. Mas qual? Alguém se lembra dela haver apresentado algum projeto de país durante a campanha? Não apresentou.
As dificuldades que a senhora Rousseff está enfrentando são obras exclusivamente suas. Ninguém a obrigou a mentir para o eleitorado, ninguém a obrigou a maquiar a situação fiscal, ninguém a obrigou aplicar um estelionato eleitoral único na história do Brasil, ninguém a obrigou a jogar no lixo o esforço de quase 20 anos em busca de uma estabilidade econômica que nos assegurasse um desenvolvimento longo, sustentável e virtuoso.
E se tudo isso não bastasse, apesar de eleita legitimamente, pode, pelas vias legais, ser apeada do poder antes de sua conclusão. Até acho que o PT compra sua continuidade, seja no Congresso, no TCU e no TSE. Mas, fica, então, a pergunta: valeu a pena empenhar a alma ao diabo para ganhar a reeleição?
Mesmo que venha recuperar a sanidade das contas públicas, mesmo que consiga colocar a inflação no centro da meta, o tempo que dispensará para tanto consumirá praticamente todo o seu mandato, não lhe sobrando quase nada para comemorar. Sairá do poder para a história como uma das mais medíocres presidentes que este país já teve. Talvez hoje, com tantos furos para tapar, não lhe sobre tempo para refletir. Mas, um dia, já longe da presidência, Dilma concluirá que empenhou sua alma a troco de nada. E é bom rezar para que a Lava Jato não encontre suas digitais nos "mal feitos" do setor elétrico.
