domingo, agosto 09, 2015

Poupança registra em julho o pior resultado em 20 anos e tem captação negativa de R$ 2,5 bi

Por Gabriela Valente
O Globo

Nos sete primeiros meses do ano, saques superaram depósitos em R$ 41 bilhões, outro recorde

Carla Gottgens / Bloomberg News  

BRASÍLIA - Um dia após a Caixa Econômica Federal restringir o financiamento da casa própria, o Banco Central comprova que há cada vez menos dinheiro disponível para esse tipo de crédito. Isso porque os brasileiros têm sacado mais recursos da caderneta de poupança do que depositam. Só no mês passado, as famílias retiraram R$ 2,5 bilhões a mais do que investiram. É o pior desempenho para o mês desde quando o BC passou a registrar os dados em 1995. Nos sete primeiros meses do ano, a chamada captação líquida ficou negativa em R$ 41 bilhões: outro recorde .

Pelas regras do sistema financeiro, a maior parte das quantias aportadas na aplicação financeira mais popular do país é usada pelos bancos para contratos de crédito habitacional. Como o brasileiro saca muito mais do que deposita, faltam recursos para isso. No fim de maio, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou mudanças nas regras para liberar nada menos que R$ 22,5 bilhões para o crédito imobiliário.

Os ministros mexeram nas normas do chamado depósito compulsório sobre a poupança, uma parte do que os bancos recebem dos depósitos na aplicação mais popular do país que os bancos não podem usar e têm de deixar parada no BC. A quantia liberada, entretanto, é muito menor que a fuga de capitais da aplicação.

Há dois grandes motivos para esse saque em massa da caderneta de poupança. Com a crise e inflação alta, falta dinheiro no orçamento das famílias para poupar. E, com juros mais altos, investidores correm para os fundos de renda fixa, já que a poupança não é mais capaz nem de proteger o dinheiro contra a inflação. O rendimento da caderneta é de cerca de 6,5% e o IPCA, índice oficial, deve ser de 9,25% neste ano.

Não houve um único mês em que a caderneta de poupança tivesse conseguido atrair mais recursos do que os que foram sacados. Segundo o BC, houve saída líquida desde janeiro.

Sem recursos, a Caixa informou que não financiará imóvel de quem já tem empréstimo habitacional com dinheiro da poupança. A mudança passará a valer no dia 17 deste mês. A instituição justificou que o foco será a habitação popular com destaque para o Minha Casa Minha Vida.

"A partir do próximo dia 17 de agosto não realizará concessão de novo financiamento aos clientes que já possuam financiamento habitacional ativo no SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), nas modalidades para aquisição de imóvel novos ou usados. Essas operações representam apenas 2,4% da quantidade de financiamentos concedidos pelo banco”.

TENDÊNCIA É SAÍDA DE MAIS RECURSOS
Para Miguel de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac), há vários fatores que explicam a fuga em massa de aplicação na poupança. Entre eles, a crise econômica.

Com menor renda (achatada pela inflação) e desemprego em alta, sobra menos dinheiro para poupar. Além disso, quem tem renda disponível para aplicar procura investimento mais rentável. Os juros - que subiram para controlar a inflação - deixam os fundos de renda fixa mais atraentes.

— A tendência para os próximos meses é mais saída de recursos da poupança por todos esses motivos.