domingo, agosto 05, 2018

Manágua vira cidade fantasma à noite por violência, contam nicaraguenses

Heloísa Traiano
O Globo

Antes bastante segura, capital vive terror com onda de repressão e ações paramilitares

Reuters 
Policiais bloqueiam entrada da igreja da Divina Misericórdia, em Manágua 

RIO E MANÁGUA - Enquanto o governo brasileiro pressiona autoridades da Nicarágua a darem mais detalhes sobre as circunstâncias da morte da estudante pernambucana Raynéia Gabrielle Lima — assassinada a tiros na noite de segunda-feira —, o país completa cem dias de protestos e violência política, vivendo um cotidiano de terror nas ruas, em que se instaurou um toque de recolher informal quando cai a noite. Ao GLOBO, moradores da capital contaram que policiais e paramilitares mascarados ligados ao regime de Daniel Ortega e fortemente armados abordam civis de maneira abusiva, usando a força arbitrariamente.

Os relatos, sob condição de anonimato por motivo de segurança, dão conta de uma completa mudança de cenário na cidade desde que irromperam em 18 de abril os protestos contra o presidente. Caravanas de cerca de dez picapes sem placas — entre veículos policiais e de grupos paramilitares — têm circulado por Manágua em alta velocidade. Policiais vão uniformizados, mas de rostos cobertos. E os outros homens, encapuzados com máscaras pretas e camisetas sempre da mesma cor, que pode variar a cada dia. Levam consigo fuzis AK-47, metralhadoras e granadas, que há três meses não seriam vistos na cidade. O clima se repete pelo país, em que 295 mortes foram confirmadas desde abril pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

— Policiais e paramilitares param você na rua e não pedem seus documentos. Pegam o seu celular e o tiram de você caso achem críticas ao governo ou a eles nas suas redes sociais. Eu mesma já vi pelo menos seis caravanas. Não podemos enxergar seus rostos, mas se presume que sejam jovens — conta uma nicaraguense.


  OSWALDO RIVAS / REUTERS
Manifestantes atrás de barricada em protesto contra Ortega em Manágua 

Lojas forçadas a fecharem mais cedo
Naquela que era a segunda capital mais segura das Américas — com cinco homicídios a cada 100 mil habitantes entre agosto de 2016 e julho de 2017, atrás só da canadense Ottawa — hoje as ruas estão desertas a partir das 18h. Empresas e lojas são forçadas a fechar às 17h, para que funcionários voltem em mínima segurança para casa, paralisando parcialmente a economia. E muitas pessoas já perderam o emprego desde abril, impedidas por barricadas em suas cidades de chegar ao trabalho em Manágua.
— Perdemos a segurança e desconfiamos de tudo. Tenho familiares que já foram abordados, e amigos detidos sem acusações. E sabemos que a polícia encobre todos os atos dos paramilitares — diz um estudante que vem participando das marchas recentes, relatando atos de violência arbitrária.

JORGE CABRERA / REUTERS
Luto. - Em 23 de julho, manifestantes levantam cruzes contra mortes 
na Nicarágua, que já chegam a 295; a capital, Manágua, 
vê sua rotina mudar por presença de armas pesadas na rua 

Autoridades forenses confirmaram que a brasileira, estudante do sexto ano de Medicina, morreu em decorrência de feridas de bala no tórax e no abdômen. E o diretor jurídico do Centro Nicaraguense de Direitos Humanos, Gonzalo Carrión, disse a uma televisão que a zona onde Raynéia teve seu carro metralhado, em Lomas de Monserrat, está sob domínio de grupos paramilitares, a quem testemunhas acusam de serem os responsáveis pelo crime. A polícia, no entanto, atribuiu em nota os disparos a um “guarda de vigilância privada”, dizendo que ele está sendo investigado.

Mas, segundo a subsecretária-geral das Comunidades Brasileiras e de Assuntos Consulares e Jurídicos do Itamaraty, Maria Dulce Barros, o Brasil quer mais informações e garantias de que os responsáveis pelo crime sejam identificados e punidos.

— Isso não nos satisfaz. É preciso uma investigação mais aprofundada — disse Maria Dulce, destacando que o governo teria mais detalhes quando o embaixador do Brasil em Manágua, Luís Cláudio Villafañe Gomes Santos, chegasse a Brasília.

A liberação do corpo de Raynéia deve demorar alguns dias. Segundo Maria Dulce, os funcionários do Itamaraty têm conversado com o irmão da estudante, Sandro Diego, e a cunhada, Juliana.

Reprodução
Raynéia Gabrielle Lima, estudante brasileira morta a tiros em Manágua, Nicarágua 

De acordo com Ernesto Medina, reitor da Universidade Americana de Manágua (UAM), onde estudava a brasileira, Harnet Lara, namorado de Raynéia que testemunhou o assassinato, relatou a colegas da jovem que ela fora abordada por três homens encapuzados na segunda-feira. Não está claro se eles tentaram detê-la, mas se sabe que ela foi baleada ao acelerar o carro, chocando-se contra um muro. Para o reitor, houve manipulação da polícia sobre a origem dos disparos:

— Lamentavelmente, não é a primeira vez que acontece. Ortega nega que haja grupos paramilitares no país, apesar das imagens que mostram civis encapuzados atacando manifestantes. Tudo que os colegas de Raynéia querem é justiça e verdade. A morte dela não pode ser encoberta por mentiras. A Nicarágua está cansada de tanta dor — disse o reitor ao GLOBO, carinhosamente lembrando que a estudante, quando caloura, convenceu colegas a hastear uma bandeira do Brasil na faculdade.

Na quarta-feira, uma missa na catedral de Manágua homenageou Raynéia. Um dia depois, alunos e professores da UAM fazem um ato de solidariedade com flores à estudante, que receberá um diploma póstumo. 


Colaborou Eliane Oliveira