segunda-feira, maio 06, 2019

Brasileiros protestam contra xenofobia após ofensas na Universidade de Lisboa

Louise Queiroga
O Globo

Alunos se depararam, na segunda-feira, com uma caixa na faculdade de Direito que oferecia pedras para serem atiradas em 'zucas', termo pejorativo derivado de 'brazucas'

  Foto: Pastor Ronaldo Pereira / Boca no Trombone
Manifestação de brasileiros contra xenofobia em Lisboa 

RIO — O episódio de xenofobia na Universidade de Lisboa, em Portugal, na segunda-feira , gerou revolta entre brasileiros que vivem na capital lusitana. Por meio de um grupo de WhatsApp com cerca de 150 participantes, uma manifestação foi organizada para esta quinta-feira. Em frente à instituição, por volta das 13h30 (9h30 no horário de Brasília), estudantes segurando cartazes de combate ao preconceito batiam palmas e gritavam: "Xenofobia não".

No início da semana, alunos se depararam com uma caixa num corredor da faculdade de Direito que oferecia pedras para serem atiradas em "zucas" — termo pejorativo usado por portugueses para se referir a brasileiros.

A suposta explicação para a agressão sugerida vem entre parênteses: os "zucas" teriam "passado à frente no mestrado". Outra placa diz "não alimentem os pombos" e outra, ao fundo, pede "contribuições para alimentar nossos animais".

— Alguns brasileiros foram perguntar do que se tratava aquilo e os portugueses disseram que era uma “brincadeira”. Os brasileiros disseram que era um absurdo, xenofobia, que iriam denunciar. E os portugueses fizeram pouco caso, dizendo que não daria em nada — contou a mestranda Maria Eduarda Calado, de 24 anos.

Imagens que mostram a aglomeração diante da faculdade de Direito foram enviadas ao GLOBO pelo pastor Ronaldo Pereira, que também participou do protesto. Ele afirmou que produz conteúdo de forma amadora, por meio de vídeos, em parceria com sua mulher para o "Boca no Trombone", divulgado no Facebook.

— Onde estiver um brasileiro discriminado, se tivermos conhecimento disso, estaremos lá para denunciar e protestar — disse Ronaldo.

  De acordo com Maria Eduarda, um professor explicou aos brasileiros que os autores da instalação "são um grupo que não tem apoio da faculdade em nada por conta de suas ideias de ir contra tudo e todos". E que, no ano passado, a seleção de mestrado foi aberta antes dos alunos de licenciatura da Universidade de Lisboa concluírem a graduação, o que fez com que a maioria dos inscritos fosse brasileira. Por esse motivo, esses portugueses se sentem injustiçados no processo seletivo.


Nota da Faculdade de Direito menciona "disputa eleitoral"

Em nota, a Faculdade de Direito explicou que se aproxima a data das eleições para a associação acadêmica, órgão que representa os discentes perante a administração.

— Mesmo em campanha eleitoral, não serão toleradas quaisquer ações ofensivas relativamente a alunos da faculdade — diz o texto, que não sugere qualquer punição aos autores dos ataques.

Já a reitoria da Universidade de Lisboa foi mais incisiva. Ao EXTRA, a assessoria de imprensa do órgão informou que "o reitor da Universidade de Lisboa, António Cruz Serra, está indignado e vai abrir um processo disciplinar aos autores da 'brincadeira'".