terça-feira, março 16, 2021

Em 22% das cidades brasileiras, Covid-19 já matou mais em 2021 do que em todo o ano passado

 Evelin Azevedo e Rafael Garcia

O Globo

Oito estados do país já contabilizam, de janeiro a março, metade dos óbitos ocorridos em 2020

  Foto: SILVIO AVILA / AFP

Profissionais de saúde cuidam de pacientes com Covid-19 no Hospital 

Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. 

RIO e SÃO PAULO — A força da epidemia da Covid-19 em 2021 é tamanha que, em 22% dos municípios do Brasil, o número de mortos registrados pela doença já é igual ou maior que o total de 2020, ano em que a epidemia transcorreu por quatro vezes mais tempo. Em 8 das 27 unidades da Federação, o número absoluto de óbitos neste ano já ultrapassou a metade do ano passado. 

Amazonas, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Roraima, Rondônia e Santa Catarina já registraram este ano pelo menos 50% do total das mortes contabilizadas em todo 2020.

O agravamento da epidemia entre um ano e outro se reflete principalmente nas regiões Sul e Norte. No entanto, por todo o país, há cidades que pouco sofreram, mas que, agora, lutam contra um inimigo muito maior. 

A Covid-19, além disso, está causando óbitos em locais que haviam sido poupados no ano passado. Um total de 276 municípios (5%) que não tiveram nenhuma morte por Covid-19 em 2020 passaram a registrar óbitos em 2021 (todos pequenos). Restam 268 cidades (5%) que ainda não têm mortes de Covid-19 registradas (todos muito pequenas, só 14 delas com mais de 10 mil habitantes). 

 Foto: Bruno Kelly / Reuters - 25/02/2021

Vista aérea do cemitério do Parque Tarumã em meio 

à crise do coronavírus, em Manaus, Amazonas 


Foto: Pilar Olivares / Reuters - 10/03/2021

Parentes de Luiz Alves, 63, vítima da COVID-19, reúnem-se 

ao redor do caixão no cemitério de Inhaúma, no Rio de Janeiro 


  Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo - 05/03/2021

Sem necessidade de apresentar comprovante de residência, 

o primeiro dia de vacinação em Duque de Caxias foi marcado 

por aglomeração, tumulto e frustração 


Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo - 14/02/2021

Aglomeração em bloco improvisado na Avenida Mem de Sá, na Lapa. 

Na cidade do Rio, o carnaval não teve programação, mas cariocas

 e visitantes espalharam folia clandestina pela cidade 


Mas a disparidade de força da epidemia em 2021 em relação a 2020 não é exclusividade de vilarejos. Em pelo menos 16 cidades com mais de 100 mil habitantes, a epidemia de Covid-19 no ano de 2021 já é mais mortal que em 2020.

Estão na lista Santa Cruz do Sul (RS), Chapecó (SC), Santarém (PA), Ji-Paraná (RO), Catalão (GO) e Passos (MG). Quatro cidades paulistas entraram para este ranking: Jaú, Araraquara, Marília e Pindamonhangaba.

Manaus é, por enquanto, a única capital e cidade com mais de 1 milhão de habitantes nessa condição.

A observação da mortalidade por município tem limitações no Brasil, porque muitas cidades com menos de 10 mil habitantes apresentam dados sujeitos a ruído. Há vários, por exemplo, em que só foi registrada uma morte em um ano ou no outro. Mesmo assim o número assusta, dado que a comparação é feita entre um período de pouco mais de dois meses em 2021 com outro com o quádruplo da duração (9 meses no ano passado). 

Situação deve se agravar

Os especialistas apontam que a grande mobilidade das pessoas em plena pandemia é o principal motivo para o aumento de casos, que geram um colapso nos sistema de saúde e, consequentemente, fazem o número de óbitos aumentar.

— Essa doença já mostrou que não há rede de saúde, seja pública ou privada, no mundo que aguente sua progressão. Se você deixa o surto rolar, é esperado um colapso nos hospitais de qualquer lugar que seja. Vimos isso em Portugal, Alemanha, Itália. A diferença é a velocidade em que isso acontece. Locais com uma rede de saúde mais enfraquecida apresentam um aumento de mortalidade mais cedo — afirma Isaac Schrarstzhaupt, cientista de dados e coordenador da Rede Análise Covid-19. 

O pesquisador destaca que, com a mudança de perfil dos infectados pela Covid-19 nessa nova onda (internados são cada vez mais jovens), a pressão nos sistemas de saúde deve ser ainda mais agravada.

— Os jovens acabam ficando mais tempo internados porque eles batalham mais pela vida. Isso faz com que eles ocupem o leito por mais tempo e esgotem o sistema ainda mais cedo. 

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia está fazendo projeções para entender como a epidemia deve evoluir nos próximos dias e já tem dados para algumas cidades maiores, incluindo Manaus e Curitiba.

Para projetar os números, os pesquisadores usam um método clássico chamado SEIR, que computa os números de pessoas suscetíveis, expostas, infectadas e recuperadas.

Segundo o pesquisador Luiz Duczmal, professor da UFMG, esse é o modelo que foi capaz de prever a entrada de uma segunda onda da Covid-19 em Manaus quando outros cientistas já acreditavam que a cidade tinha um estado avançado de imunidade coletiva 

— Nós sabíamos que essa imunidade de rebanho não fazia sentido, e nós concluímos isso usando um modelo SEIR, que é o “arroz-com-feijão” da epidemiologia — conta Duczmal. — Nós avisamos em agosto que viria a segunda onda, e ela chegou.

Agora Manaus já está com número de óbitos em queda, mas a reabertura recente do comércio e das escola preocupa Duczmal. 

— O Brasil nunca teve um grau de isolamento bom depois de julho do ano passado, e em cima disso, agora há volta das aulas presenciais em Manaus e outros municípios — diz. — Houve muito pouco esforço para barrar as comemorações de fim de ano e as aberturas de bares.