Luana Meneghetti
Veja online
Em meio a uma recessão técnica e já acostumadas às instabilidades, empresas estão menos alavancadas do que há seis anos atrás. avalia a Moody's
Andre Borges/NurPhoto/Getty Images
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Vez ou outra o Brasil se depara com uma crise econômica. Diante aos altos e baixos, o entendimento é que as companhias brasileiras já vêm se preparando há algum tempo para os cenários adversos. Em meio a uma recessão técnica oficial e já acostumadas às instabilidades locais, as empresas brasileiras estão preparadas para enfrentar a turbulência dos próximos anos, diz a Moody’s, agência de classificação de risco. A análise da agência se refere às companhias que acessam o mercado de dívida, que emitem bônus ou debêntures, por exemplo.
Embora o cenário não seja nada otimista para o próximo ano, com projeção de inflação em 5% e a taxa básica de Juros (Selic) em 11,25%, o que impacta diretamente na contratação de novos investimentos para o Brasil e consequentemente em menor geração de empregos, em uma país que já conta com 14 milhões de desempregados, as empresas “já fizeram a lição de casa”, aproveitando as quedas na taxa de juros entre 2019 e 2020 para alongarem seus prazos. Segundo Bernardo Costa, Gerente de Classificação da Moody’s, hoje as companhias estão com níveis de alavancagem mais baixos, com posições de caixa mais robustos e cronogramas de amortização das dívidas mais longos, o que tem ajudado a mitigar o efeito do aumento da taxa de juros na capacidade dessas empresas honrarem suas dívidas.
De acordo com o relatório da XP, desde 2015 as empresas do Ibovespa apresentam redução de endividamento superior a 7 na dívida líquida/Ebtida. O indicador dívida/Ebtida mostra o nível de endividamento da empresa e é interpretado em vezes, que significa quantas vezes a empresa vai precisar multiplicar o caixa para honrar a dívida. Quanto menor o indicar, melhor é a saúde financeira da empresa. O mercado considera positivo quando esse indicador não ultrapassa 2 vezes. Em 2019, essa relação foi de 2,5 vezes a dívida/Ebtida a média das empresas que compõe o Ibovespa. A estimativa da Veedha Investimentos é 1,48 vezes dívida/Ebtida para este ano e de 1,57 vezes dívida/Ebtida para 2022.
Na análise da Constância Investimentos, além das empresas que compõe o Ibovespa, as duzentas empresas mais representativas da bolsa estão em nível de endividamento mais baixo em dez anos. “O nível de alavancagem hoje é quase 1/3 de 2015 e metade de 2016”, diz Gustavo Akamine, analista da Constância Investimentos.
Concomitantemente, a partir de 2016, com a queda dos juros e a recuperação das commodities, as margens operacionais (Ebtida) das empresas também saltaram de 12% para 22% em 2019. “De fato, a situação das empresas no Brasil é melhor do que anos atrás, com endividamento baixo e margens (lucro/receita) mais altas”, diz a XP em relatório. Para Rodrigo Moliterno, analista da Veedha Investimentos, as grades empresas que possuem liquidez estão preparadas para enfrentar a alta de juros e do dólar, mas as novas e de capital intensivo vão ter mais dificuldade de enfrentar o cenário.
A alavancagem é menor tanto em empresas exportadoras, ligadas as commodities, quando as empresas ligadas a economia interna. André Querne, sócio da Rio Gestão, explica que as empresas de commodites fizeram investimentos pesados no passado e chegaram em 2015 muito alavancadas, em meio um cenário bastante instável com a alta de juros e a crise que culminou no impeachment da presidente Dilma Rouseff em 2016. Com a retomada gradual da economia, as empresas recuperaram o fôlego e hoje estão suas dívidas baixas e forte geração de caixa. “Vale, Gerdau, Petrobras estão nesse bom momento. Até por isso nós (Rio Gestão) estimamos a Petrobras pagando dividendo de 20% ao nos próximos anos devido à forte geração de caixa e baixo nível de investimento e dívida, sobrando muito recurso para distribuir aos acionistas”, diz.
Segundo Querne, o processo de taxa de juros baixa no último ano também favoreceu as empresas domésticas na captação de recursos na bolsa para o ajuste de suas dívidas. A bolsa vivenciou uma debandada de investidores institucionais e físicos para o mercado acionário no último ano com a queda dos rendimentos na renda fixa. Hoje, o cenário se inverteu, mas segundo os especialistas as empresas estão bem mais preparadas para enfrentar os períodos de turbulência fiscais e pré-eleitorais em comparação a seis anos atrás. Por enquanto, os caixas estão robustos para a maioria delas.
Mas, embora as empresas estejam mais preparadas para lidar com o cenário, o gerente da Moody’s alerta que é preciso reverter o cenário. As empresas precisam ter maior visibilidade de inflação e juros baixos no médio e longo prazo, o que não vem acontecendo. No Boletim Focus, a projeção da Selic para 2023 e 2014 rondam a casa de 7%. “É difícil prever um cenário a médio prazo com juros abaixo de 4% e isso é muito prejudicial porque aumenta o custo de investimento para as empresas e isso tem consequência em toda a economia”, diz Costa.
Além disso, a desvalorização do real frente ao dólar preocupa. A alta do dólar pressiona o endividamento das empresas que possuem custos atrelados à moeda americana. As companhias aéreas por exemplo possuem 35% dos seus custos e obrigações em dólar e é um dos setores mais impactados com as restrições da pandemia.