quinta-feira, janeiro 06, 2022

MISTURA DE ATRASO COM IGNORÂNCIA: proposta de redução de 50% no teto da Lei Rouanet é vista por setor como mais um entrave a projetos culturais

 Nelson Gobbi

O Globo

Ideia foi debatida nas redes pelo secretário Mario Frias e seu braço direito, André Porciuncula; número de projetos aprovados em 2021 foi 35% menor em relação ao ano anterior

  Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo

Mario Frias: governo pode voltar a debater redução do teto da Rouanet 

Após terminar 2020 e passar 2021 em uma queda de braço com a Secretaria Especial da Cultura para a liberação de projetos parados na Rouanet, produtores foram pegos de surpresa no último sábado, primeiro dia do ano, com uma postagem do secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura, o ex-policial militar André Porciuncula, com uma proposta de redução de 50% do teto da lei, sobre a qual estaria conversando com o titular da Secretaria Especial da Cultura, Mario Frias. “Isso permitirá uma descentralização ainda maior dos recursos e beneficiará ainda mais os pequenos artistas. Em 2022 vamos ampliar o acesso desses pequenos agentes culturais”, justificou Porciuncula no Twitter. No Instagram, Mario Frias comentou: “Vamos devolver a cultura ao povo brasileiro”.

Em 2019, o governo Bolsonaro já havia feito uma redução nesse valor — de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão por projeto — e depois voltou a ampliar o limite para alguns setores, como os musicais, que podem captar até R$ 10 milhões. Projetos de áreas como ópera, concertos sinfônicos, corpos estáveis (de teatro e dança), eventos literários, ações de incentivo à leitura e artes visuais podem chegar até R$ 6 milhões. 

— Esse discurso da concentração de recursos vem do desconhecimento do mecanismo da lei. A imensa maioria dos produtores já capta um valor muito inferior do teto a que tem direito. E, como o mecenato é baseado em lucro real, é natural que a maioria dos projetos se concentre no Sudeste, onde as maiores empresas estão. Mas isso não quer dizer que os recursos não sejam aplicados em outras regiões, há produtoras que fazem projetos para outras praças e vários patrocínios que preveem itinerância — comenta Bianca de Felippes, diretora da Associação dos Produtores de Teatro (APTR). — A redução do teto não vai resolver o problema do produtor que não consegue captar, ele precisa ser assistido pelo fomento direto, via Fundo Nacional de Cultura. 

Bianca cita o exemplo de como os recursos da Lei Aldir Blanc (regulamentada em 2020, mas que teve o prazo de utilização dos recursos prorrogado em 2021) chegaram a projetos menores, ao serem liberados como crédito extraordinário no Orçamento pelo governo federal e distribuídos para pagamento a estados e municípios. Uma iniciativa que também colaborou para a aproximação dos produtores e dos gestores culturais locais, como explica Fabricio Noronha, secretário da Cultura do Espírito Santo e Presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura. 

— Num ano de dificuldades, uma grande conquista foi a aproximação com produtores e com o Congresso. As secretarias estaduais e municipais viram um aumento expressivo de inscrições em programas locais, até de produtores que recorriam tradicionalmente à Rouanet e que não utilizavam os outros fomentos — destaca Noronha. — Outro ganho foi a troca com o parlamento, que se mostrou sensível às demandas do setor. Começamos o ano com a expectativa de aprovação da LAB 2 e da Lei Paulo Gustavo na Câmara, depois de ter a urgência da votação aprovada no final do ano legislativo.

Produtores também apontam que a redução do teto seria mais um entrave na Rouanet, que terminou 2021 com muitos projetos aguardando aprovação ou homologação, mesmo tendo recursos captados já disponíveis. Segundo dados do Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic), em 2021 foram 2.718 projetos aprovados contra 4.180 em 2020, uma redução de 35%, enquanto a captação continuou a crescer, chegando a R$ 1,9 bilhão totalizado no último ano. 

Foto: Arte O Globo

Captação e projetos aprovados na Lei Rouanet 

Outra dificuldade à aprovação de projetos, a falta de recomposição da CNIC (Comissão Nacional de Incentivo à Cultura) foi finalmente solucionada no dia 23 de dezembro, quando foi publicada no Diário Oficial a lista dos membros para o biênio 2022-2023. Responsável por avaliar, em reuniões mensais, projetos para a obtenção de incentivo fiscal via Rouanet, o colegiado havia terminado o mandato anterior em abril, mas o edital para a nova seleção só foi publicado pela Secretaria da Cultura em outubro. Neste período, as decisões sobre os projetos ficaram exclusivamente a cargo de Porciuncula. Resta saber se o secretário voltará a seguir as análises da CNIC — a comissão tem um caráter consultivo, mas seus pareceres sempre foram vistos como o último passo para a aprovação de projetos. 

Procurada, a Secretaria Especial da Cultura não respondeu se existe algum projeto em andamento para a redução do teto da Rouanet e se há data prevista para a primeira reunião da CNIC.

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:

Só um governo comandado por uma mente primitiva, ignorante e devotada ao atraso, é capaz de manter à frente da Secretaria de Cultura um delinquente feito Mario Frias. Mas todo este discurso não passa de retórica, pura balela. Na próxima edição do blog, traremos um texto que desconstrói toda esta empáfia do rapazola