Até 1888 só houve escravidão. De 1888 até hoje, não houve libertação
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Por Hélio Fernandes,
Publicado na Tribuna da Imprensa.
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A discussão sobre o racismo no Brasil é inconseqüente, incoerente e inconsistente. Não adianta dizer que existem hoje mais negros e pardos estudando, e até entrando para universidades, não acrescenta nada, não explica nem identifica as raízes e o desenvolvimento do problema. Somos racistas e preconceituosos, não melhoramos desde 1888. E até mesmo 1888 está mais para farsa do que para autenticidade.
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Até 1840, a Europa inteira e o Norte dos Estados Unidos acabaram com a escravidão, não por generosidade e sim por inteligência. Com a Revolução Industrial da Inglaterra em 1780, eram necessários 3 ou 4 vezes mais consumidores do que antes.
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Os europeus logo descobriram: os consumidores estavam nas suas próprias senzalas. Não podiam comprar (ou consumir) nada porque não recebiam salário, eram sustentados pelos senhores, em troca do trabalho. Fizeram as contas, Nossa Senhora, libertaram os escravos, ficaram mais ricos do que nunca.
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Todo o Norte dos Estados Unidos, começando em Nova Iorque, Pensilvania, Virginia, Nova Jersey, indo até Washington, fizeram o mesmo, poderiam ter dito antes de Hemingway em 1920: "Nova Iorque é uma festa".
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Apesar da terrível guerra civil de 1860, os Estados Unidos só se livraram da escravidão total por causa da decisão magnífica da Suprema Corte Federal. (Se identifico aqui a Suprema Corte Federal é porque cada um dos 50 Estados americanos tem 4 Cortes Supremas. Podem tudo no âmbito da Justiça, menos contrariar a Suprema Corte Federal). Essa é uma das vantagens da Confederação sobre a Federação. E explica porque os americanos, de 1776 a 1781, depois de derrotarem a Inglaterra, discutiram 5 anos se queriam a Constituição ESTADUALISTA ou FEDERALISTA. Sabiamente ficaram no meio.
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Por Hélio Fernandes,
Publicado na Tribuna da Imprensa.
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A discussão sobre o racismo no Brasil é inconseqüente, incoerente e inconsistente. Não adianta dizer que existem hoje mais negros e pardos estudando, e até entrando para universidades, não acrescenta nada, não explica nem identifica as raízes e o desenvolvimento do problema. Somos racistas e preconceituosos, não melhoramos desde 1888. E até mesmo 1888 está mais para farsa do que para autenticidade.
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Até 1840, a Europa inteira e o Norte dos Estados Unidos acabaram com a escravidão, não por generosidade e sim por inteligência. Com a Revolução Industrial da Inglaterra em 1780, eram necessários 3 ou 4 vezes mais consumidores do que antes.
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Os europeus logo descobriram: os consumidores estavam nas suas próprias senzalas. Não podiam comprar (ou consumir) nada porque não recebiam salário, eram sustentados pelos senhores, em troca do trabalho. Fizeram as contas, Nossa Senhora, libertaram os escravos, ficaram mais ricos do que nunca.
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Todo o Norte dos Estados Unidos, começando em Nova Iorque, Pensilvania, Virginia, Nova Jersey, indo até Washington, fizeram o mesmo, poderiam ter dito antes de Hemingway em 1920: "Nova Iorque é uma festa".
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Apesar da terrível guerra civil de 1860, os Estados Unidos só se livraram da escravidão total por causa da decisão magnífica da Suprema Corte Federal. (Se identifico aqui a Suprema Corte Federal é porque cada um dos 50 Estados americanos tem 4 Cortes Supremas. Podem tudo no âmbito da Justiça, menos contrariar a Suprema Corte Federal). Essa é uma das vantagens da Confederação sobre a Federação. E explica porque os americanos, de 1776 a 1781, depois de derrotarem a Inglaterra, discutiram 5 anos se queriam a Constituição ESTADUALISTA ou FEDERALISTA. Sabiamente ficaram no meio.
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Essa decisão magistral acabou com a segregação nos ônibus escolares e depois se estendeu pelo país todo e não apenas no campo do transporte. A primeira intervenção ocorreu no governo Kennedy, em 1962. Mas o acordão final e irrecorrível veio em 1964, já com Lyndon Johnson, que assumira com o assassinato de Kennedy.
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Os negros no Brasil jamais tiveram espaço. Tinham que ocupá-lo com uma obstinação e determinação que os brancos não precisavam. Em todos os setores os negros encontram resistências, não recebem coisa alguma. Mesmo as conquistas são discutidas, negadas, polemizadas e não raro retiradas.
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A própria Igreja discrimina, persegue, já não tortura como no tempo da Inquisição, mas não deixa os negros ocuparem lugares na Cúpula. O Brasil teve um cardeal negro, por pouco tempo. Outro? Podem esperar por anos e anos. Advogados, médicos, engenheiros, jornalistas? Na arquitetura existiram os irmãos Rebouças, negros e competentes. Até hoje poucos sabem que o túnel que libertou a Zona Sul é homenagem a eles.
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O Exército também não tem apreço por negros, embora sua História comece no povo mesmo (quando soldados chegavam a generais) e depois na classe média. O coronel Job Lorena, em 1977, chegou a general porque concordou em fazer o serviço sujo que os brancos não queriam fazer. Não reprovo o coronel, é assim mesmo.
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Nessa época, este repórter publicou com exclusividade o que seria conhecido como "relatório Saraiva". Este, brilhante adido militar na França, relacionou irregularidades fantásticas cometidas pelo embaixador Delfim Netto. A ditadura não queria puni-lo nem demiti-lo. Resolveram então arquivar o relatório. Como nenhum coronel aceitou presidir a investigação como farsa, chamaram Job Lorena. O processo foi arquivado e o coronel Saraiva sacrificado.
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PS - A História dos negros no Brasil se escreve dessa maneira. Em vez das homenagens vazias para Zumbi, deviam juntar negros e brancos (?) no exercício das mesmas funções e disputando os mesmos cargos.
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Os negros no Brasil jamais tiveram espaço. Tinham que ocupá-lo com uma obstinação e determinação que os brancos não precisavam. Em todos os setores os negros encontram resistências, não recebem coisa alguma. Mesmo as conquistas são discutidas, negadas, polemizadas e não raro retiradas.
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A própria Igreja discrimina, persegue, já não tortura como no tempo da Inquisição, mas não deixa os negros ocuparem lugares na Cúpula. O Brasil teve um cardeal negro, por pouco tempo. Outro? Podem esperar por anos e anos. Advogados, médicos, engenheiros, jornalistas? Na arquitetura existiram os irmãos Rebouças, negros e competentes. Até hoje poucos sabem que o túnel que libertou a Zona Sul é homenagem a eles.
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O Exército também não tem apreço por negros, embora sua História comece no povo mesmo (quando soldados chegavam a generais) e depois na classe média. O coronel Job Lorena, em 1977, chegou a general porque concordou em fazer o serviço sujo que os brancos não queriam fazer. Não reprovo o coronel, é assim mesmo.
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Nessa época, este repórter publicou com exclusividade o que seria conhecido como "relatório Saraiva". Este, brilhante adido militar na França, relacionou irregularidades fantásticas cometidas pelo embaixador Delfim Netto. A ditadura não queria puni-lo nem demiti-lo. Resolveram então arquivar o relatório. Como nenhum coronel aceitou presidir a investigação como farsa, chamaram Job Lorena. O processo foi arquivado e o coronel Saraiva sacrificado.
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PS - A História dos negros no Brasil se escreve dessa maneira. Em vez das homenagens vazias para Zumbi, deviam juntar negros e brancos (?) no exercício das mesmas funções e disputando os mesmos cargos.