sábado, dezembro 09, 2006

O ministro pasmado

por Celso Ming, no Estadão
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O ministro da Defesa, Waldir Pires, é um pasmado diante da crise nua. Nunca sabe de nada e se surpreende a cada momento, quando alguém lhe faz uma pergunta qualquer sobre o apagão aéreo ou sobre o caos em que se transformaram os aeroportos.
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Ainda que tenha sido colocado no posto apenas para não atrapalhar os comandantes militares, para todos os efeitos ele é o responsável direto pelo que está acontecendo. É assim nas leis militares: o responsável é sempre quem está no comando.
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Parece que alguém precisa dizer ao presidente Lula que controle de vôo é assunto de segurança nacional. Esta é a única razão pela qual este serviço está sob responsabilidade da Aeronáutica. E, no entanto, o tratamento dispensado até agora para o problema foi dos mais estapafúrdios. Às vezes, o governo Lula pareceu pretender encaminhar soluções trabalhistas. Foi assim, por exemplo, quando determinou que o ministro do Trabalho se reunisse com as autoridades da área para procurar uma saída para a operação-padrão dos controladores de vôo. Com isso, conseguiu subverter a hierarquia militar na medida em que aceitou ouvir reivindicações salariais de sargentos da Aeronáutica.
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Às vezes, se põe a cobrar como se tudo realmente dependesse da Aeronáutica, mas nunca exigiu conseqüência para ações e omissões. A decisão de aquartelar os controladores de vôo, tomada pelo comandante da Aeronáutica, foi um tiro pela culatra que contribuiu para desautorizar os superiores.
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Das autoridades da Aeronáutica também estamos ouvindo declarações desencontradas. Quando do acidente do Boeing da Gol, foram as primeiras a negar responsabilidades pelo ocorrido dos serviços de controle de vôo. Agora já se sabe o suficiente para dizer o contrário.
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Quando, na terça-feira, saiu do ar o sistema de rádio que interconecta centros de controle, torres e aeronaves, o comandante da Aeronáutica, Luiz Carlos Bueno, apressou-se a descartar sumariamente a hipótese de sabotagem. Mas não foi capaz de dar explicação mais convincente para o que aconteceu.
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De todo modo, essa pane mostrou que não há sistema de reserva num setor vital, o que por si só demonstra a ordem de prioridades atribuída a esses assuntos na Aeronáutica. É como um hospital de primeira linha não contar com gerador próprio de energia elétrica em condições de entrar em funcionamento sempre que falte força de alimentação externa.
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Há dois meses, a balbúrdia tomou conta dos céus e dos aeroportos deste país sem que nenhuma solução tenha sido encaminhada. Falta até mesmo um diagnóstico seguro do problema. O comandante da Aeronáutica entende que a solução passa pela aplicação drástica dos regulamentos militares. O ministro Waldir Pires parece mais propenso a saídas de tipo político. Nesse clima de desencontro, a qualidade de comando fica prejudicada.
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Os prejuízos não se limitam aos vôos atrasados ou definitivamente suspensos; às viagens programadas, mas não realizadas; ao faturamento desfeito das companhias aéreas que derrubou em R$ 5 bilhões o valor de mercado das ações da Gol e da TAM; e às oportunidades perdidas nos serviços de hotelaria e no avanço do turismo. É incomensurável o volume de encontros de trabalho agendados, mas não realizados; e de decisões que deixaram de ser tomadas por conta disso. Em Brasília, dezenas de eventos no Congresso tiveram de ser desmarcados porque deputados e senadores não puderam chegar a tempo ou tiveram de cancelar suas viagens. E ainda é preciso ver quantos processos por indenização serão abertos na Justiça para repor perdas a passageiros, empresas e companhias de transporte aéreo.
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A pane principal não é sequer dos serviços de controle de vôo ou dos sistemas de comunicação. É da capacidade do governo Lula de encaminhar solução rápida e eficaz a uma crise dessas proporções.
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Questões de segurança nacional têm de ter tratamento de Estado-Maior e não de cartolagem sindical. Exigem capacidade de comando e não ajeitação inconseqüente.
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No entanto, só quarta-feira o presidente Lula entendeu que devesse convocar um gabinete especial de crise para consertar as coisas. Ainda assim, o risco é o de que um processo encaminhado nessas condições se arraste interminavelmente, em reuniões inconclusivas, bem ao feitio do governo PT.