domingo, fevereiro 18, 2007

O novo governo com cara de velho

Villas-Bôas Corrêa, repórter político do JB

Nos galeios na corda frouxa da indecisão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tanto empurra com as manhas de discutível habilidade o começo do encruado governo da reeleição que o coitado antes de nascer, nos esboços de caricatura prometidos para depois do carnaval, aparenta a velhice precoce no rosto vincado pelas rugas e o ar estafado pela interminável montagem do bis sempre adiado.

A estranheza é justificada. Afinal, governo de presidente reeleito não começa: continua com os retoques para os reajustes políticos e as trocas inevitáveis de ministros e diretores dos bons-bocados da burocracia. E quanto mais depressa, melhor, para evitar o desperdício do tempo que não volta mais.

Para mal dos pecados sem perdão, além do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que é um plano de retomar obras atrasadas e paralisadas ou apenas iniciadas, nenhuma idéia inovadora ou ambicioso projeto de largo alcance passa sequer de raspão pelas caducas e enjoativas conversas para a distribuição de fatias do bolo ministerial e demais iguarias disputadas pela insaciável gula dos desavindos aliados da tal base parlamentar.

Nos primeiros ensaios de acertos para dividir os mais de 30 ministérios e secretarias - o maior de todos os tempos - o esforço para manter a máscara da severidade no rateio costuma descambar para o terreno da galhofa. O PMDB recondicionado, exibido como troféu de caça, foi o primeiro a ser chamado para uma conversa preliminar com o presidente. O deputado Michel Temer, presidente do clube, e os líderes nas duas Casas do Legislativo, senador Valdir Raupp e deputado Henrique Eduardo Alves, recebidos para duas horas de tertúlia, resumiram objetivamente o que interessa: o partido vai duplicar o seu espaço no governo com a manutenção das pastas de Minas e Energia e Comunicações e mais duas, provavelmente Saúde e Integração Nacional.

A opereta ganha animação e comicidade na voz de integrantes do coro. O gongórico ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro, que jamais escorrega na vulgaridade de uma frase em ordem direta, ressalta que a obediência à conexão política na rifa ministerial terá que respeitar, "em determinados casos, uma qualidade técnica muito específica". Aqui, embatucamos logo na arrancada: cotado para o Ministério da Integração Nacional, a única qualidade técnica muito específica que a biografia do deputado baiano Geddel Vieira Lima registra é o seu envolvimento no estardalhaço da compra de fazendas pela família, por mera coincidência, durante o seu exercício do afortunado mandato.

No mesmo padrão ético enquadra-se o acordo entre o PMDB, em lua-de-mel com o PT, para a entrega ao partido da desbotada bandeira vermelha da presidência do Conselho de Ética da Câmara. O acordo de cavalheiros encontra resistência na determinação do presidente, deputado Ricardo Izar (PTB-SP), de disputar a recondução. A legenda do mensalão, do caixa 2 e enrolada em todos os escândalos do Congresso recordista em trapaças, na presidência do Conselho de Ética, tem o sabor de um gracejo. Os gajos têm chiste.

Além das xepas de fim de feira e para comprovar que a mão que afaga é a mesma que atira pedras no telhado de vidro de aliados e adversários, o governo anunciou o puxão de orelha com endereço do Congresso, no corte no Orçamento deste ano entre R$ 18,5 bilhões e R$ 19,5 bilhões. E informa que dividirá o prejuízo cortando na própria pelanca das despesas de custeio e no cancelamento das emenda parlamentares que liberam verbas para obras. É o maior corte desde 2003: o governo bate o seu recorde.

Como o Congresso não perde uma oportunidade de entrar no pagode, armou a sua jogada na moita: está nos seus conchavos finais a realização de concurso para milhares de cargos na Câmara e Senado, regiamente remunerados, a pretexto do preenchimento de vagas e atender às inovações na área de comunicação.

De mais servidores o Congresso não precisa. Seria altamente recomendável que se aplicasse na recuperação do seu conceito com a limpeza das mordomias, vantagens e benefícios. Que tal começar pelo cancelamento da verba indenizatória de R$ 15 mil mensais para o ressarcimento das despesas de fim de semana de suas excelências nas bases eleitorais?