sábado, abril 07, 2007

O terceiro elemento

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

BRASÍLIA - Nessa lamentável crise do apagão aéreo, é preciso prestar atenção no terceiro elemento, que nas crises mais recentes tem aparecido apenas com o poder de seu voto, mas, agora, desperta com a força muitas vezes incontrolável de sua indignação.

Até há pouco, de um lado estavam os controladores de vôo, em pleno motim, desafiando a hierarquia e a disciplina que um dia juraram respeitar, como militares. De outro, o poder público, desmoralizado pelas próprias cisões e indecisões, cujo melhor exemplo é o presidente da República, a um só tempo desautorizando o Alto Comando da Força Aérea e anunciando dia e hora para conter o caos através de concessões aos amotinados.

O terceiro elemento é o povo, expresso nos milhares de passageiros há meses abandonados nos aeroportos, tanto pelo poder público quanto pelos controladores de vôo. É o componente mais forte na equação. Carregado de razão, se fizer valer a sua força, poderá virar o País de cabeça para baixo. No fim de semana assistimos ao último ensaio geral, entre protestos e frustrações, a um passo da explosão. A semana que agora se inicia é o limite, apesar de denominada de Santa.

Os controladores vangloriam-se de poder parar o Brasil e mantêm a ameaça de nova paralisação. Pretendem tratamento salarial mais justo. Têm razão, mas apenas eles vivem sufocados entre baixa remuneração, estresse permanente e regulamentos rígidos? O que dizer da Polícia Federal? Dos médicos, que recebem dois reais por consulta, nos ambulatórios do SUS? Dos bombeiros, dos policiais militares, dos professores? Todos dispõem dos mesmos motivos para rebelar-se diante de uma sociedade injusta e de um poder público inoperante. Teriam esse direito?

O presidente Lula promete para hoje a solução definitiva. Deve tomar cuidado. A incúria de seu governo, tanto quanto o egoísmo dos controladores, abre passagem para a entrada no palco do terceiro elemento, "Sua Excelência, o Povo", humilhado, ofendido e desesperado.

A hierarquia acima de tudo
Vai ser militar quem quer. Querendo, por necessidade ou por inclinação, saberá estar a vida castrense pautada por disciplina e hierarquia, entre outros valores. Todas as vezes em que esses dois princípios foram quebrados, deu confusão. A mais recente levou à deposição de um presidente da República.

Nos idos de 1964, as Forças Armadas aceitavam, mesmo com restrições, a evolução do governo em torno das reformas de base, fundamentais, mas contestadas pelas elites. Militares aplaudiam a marcha para o socialismo, como militares reagiam ao que chamavam a comunização do país. Mantinham-se, porém, aferrados aos regulamentos e à Constituição. A prova é ter malogrado a tentativa de golpe, em 1961, contra a posse de João Goulart. Partiu dos quartéis, como das praças públicas, o grito pela legalidade.

O então presidente, meio desarvorado diante de múltiplas pressões, insistia em realizar de uma só vez as reformas agrária, urbana, bancária, educacional, sindical, dos remédios e tantas outras, que os militares aceitavam ou reclamavam, como cidadãos, mas acatavam de acordo com os princípios fundamentais de sua própria razão de ser.

Foi quando João Goulart, iludido ou pressionado, admitiu quebrar a hierarquia castrense, prestigiando reivindicações até justas dos subalternos, mas fora das cadeias de comando.

Fez mais: dialogou com amotinados e até os anistiou, no caso dos marinheiros, abrindo as comportas para a baderna. Caiu, ainda que para a queda tivessem contribuído os mesmos setores reacionários de sempre, as elites empenhadas em tirar castanhas do fogo com as mãos do gato, ou seja, dos militares. Depois, foi o que se viu: 21 anos de exceção. Por que se conta essa história? O leitor que tire suas conclusões...