sábado, abril 07, 2007

Vamos perder para o Haiti?

Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa

BRASÍLIA - O mundo inteiro olha para o Brasil e parece não estar gostando do que vê. O mais recente espanto da imprensa internacional refere-se ao apagão aéreo, valendo registrar o cancelamento de alguns vôos da Europa e dos Estados Unidos para São Paulo e o Nordeste, a cargo de empresas estrangeiras temerosas de enfrentar problemas delicados aos sobrevoar o nosso espaço.

Outros fatos não deixam de ganhar textos e imagens nas principais capitais do planeta, todos desfavoráveis a nós. Assassinatos de turistas, assaltos a toda hora, comunicações sofríveis, rodovias intransitáveis, perspectiva de greves em setores essenciais, inclusive a polícia e o Banco Central, e agora o caos nos aeroportos - tudo compromete nossa imagem lá fora.

E não compromete em sentido figurado, no máximo sugerindo a americanos e europeus que deixem de fazer turismo entre nós. Serão mais graves as conseqüências. Faltam menos de 100 dias para os Jogos Pan-Americanos, a realizar-se no Rio. Caso sucedam-se dificuldades e empecilhos de gravidade, prejudicando os atletas, os jornalistas e os turistas, acontecerá o quê?

Nada mais nada menos do que o descarte do Brasil como candidato à realização da Copa do Mundo de futebol, em 2014, conforme nossas pretensões. Que ninguém duvide estar a Fifa de olho em cada detalhe da futura competição, ou melhor, se teremos condições de atendê-los. Caso contrário, adeus Copa, porque outros países candidatos existem aos montes. Até o Haiti...

O tempo passa
Dos novos ministros empossados segunda-feira, nenhum chegou a reunir a imprensa para anunciar planos e programas definidos. No máximo, ficaram nas generalidades, nos agradecimentos ao presidente Lula pela confiança e no sentimento de profunda lealdade ao governo. Tudo bem, não há que esperar milagres, mas a verdade é que, em condições normais de temperatura e pressão, quem costuma estar cotado para ministro será pela sua competência no respectivo setor.

Sendo assim, há muito que disporá de linhas-base e de objetivos definidos para uma função determinada. Na recentíssima reforma ministerial, foi o que não aconteceu. Figuras expressivas ou não se viram cogitadas para diversas pastas, permanecendo até o fim a indecisão e até o troca-troca horas antes das posses. Vamos evitar o constrangimento de citações nominais, mas a maioria dos novos ministros não tinha qualquer relação com os problemas a enfrentar. Foram para o ministério em função de acordos político-partidários ou de escolhas-surpresa do presidente Lula.

Não vamos ser pessimistas e admitir, desde já, que venham a fracassar. Os votos são para que logo se enquadrem nos setores para os quais se viram convocados, que façam um aprendizado relâmpago e saiam do jardim da infância. Melhor ainda, que possam anunciar novidades.

Ficar em casa
Nos dias que antecederam a Semana Santa, aconteceu no País fenômeno jamais acontecido. Boa parte dos pais, filhos, responsáveis, parentes e amigos de pessoas dispostas a viajar aconselhou-as a ficar em casa. Cada programa de turismo interno ameaçou transformar-se numa aventura para aqueles que se dispuseram a aproveitar o feriado. Muitos aceitaram as ponderações e não viajaram. Afinal, usar avião virou temeridade, menos para os proprietários de jatinhos particulares ou altas autoridades com a FAB à sua disposição. Até hoje, sábado, não sabemos se voltarão as greves, paralisações ou operações-padrão, comprimindo multidões exasperadas nos aeroportos.

Não é só. Utilizar rodovias equivale a arriscar não apenas o patrimônio, para quem tem automóvel, porque o que se expõe é a própria vida. Ano passado 49 mil brasileiros morreram em acidentes nas estradas, 730 por dia, nas rodovias federais. As providências do governo ficaram muito aquém das necessidades, porque nem a "operação tapa-buraco" funcionou.

A falência das estradas não concentra a exasperação do povo, como no caso das greves nos aeroportos, porque os protestos espalham-se por quase todo território. Mesmo assim, fosse possível medir o grau de irritação nacional diante do drible nos buracos e da quebra de suspensão de carros e haveria empate com os cancelamentos de vôos.