A verdade sobre câmbio e exportações.
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
Este espaço tem sido uma voz quase isolada, já há mais de um ano, nas duas questões acima: exportações e câmbio. Muito embora ambas se correlacionem, cada uma, ao seu modo, traz implicações negativas para a economia do país.
Na questão do câmbio, desde o princípio fomos contrários ao decreto federal que desonerou seu ingresso para financiamento da dívida pública. E por quê? Porque praticando os juros que o Brasil, não se precisava adicionar mais um incentivo para o ingresso de dólares no país.
Já havia em fevereiro de 2006 um ingresso forte por conta das exportações. Como resultado, o real já vinha em valorização crescente em relação ao dólar, e se nada fosse feito para conter esta valorização, o país deixaria de exportar inúmeros produtos tradicionais em sua pauta comercial, para passar a importá-los, provocando dificuldades no mercado interno, em segmentos grandes empregadores de mão de obra, tais como por exemplo calçados e têxteis. Ou seja, muitos postos de trabalho acabariam fechados, o que seria danoso para um país com média prolongada de 10,0 % em seu nível de desemprego. Mesmo que o governo tenha desonerado inúmeros produtos no segmento de construção civil, o que provocou, claro, uma reativação virtuosa numa área com imenso emprego de mão de obra, este processo acabou como que anulado pelo desemprego de outras áreas. Tanto que isto é verdade que estamos, mais de um ano depois, mesmo diante de milhares de novas vagas, mantendo o mesmo percentual de 10% no desemprego.
Estivesse o real em relação ao dólar, na casa de R$ 2,40 / 2,50, e por certo, as exportações seriam, no mínimo, em torno de 40 a 60% maiores. Deste modo, isto estaria repercutindo positivamente na manutenção de atuais postos de trabalho, além de estar gerando milhares de novas vagas, contribuindo, assim, substancialmente para elevar a própria arrecadação de impostos, e contribuições, principalmente previdenciárias, elevando o padrão de renda, aumentando o consumo interno através da geração de renda, e não de crédito como vemos hoje.
Claro que no governo se está olhando para a contribuição que o câmbio nos atuais traz para a contenção da inflação. Torna-se desnecessário este freio pela política monetária praticada pelo Banco Central, que muitos julgaram excessiva. Negativo. Aqui, o BC fez o seu papel. Faltou foi sensibilidade à equipe econômica para rever a política cambial, o que por certo, em condições opostas, e mesmo diante dos juros internos praticados, manteriam a inflação sob controle, e sem a necessidade de mais um freio que acaba desarrumando segmentos que vinham se portando a contento.
Estes excessos de “cautelas” só não causaram estrago maior na economia do país, em função do mundo estar crescendo em médios em torno de 7% ano e por conta dos preços das commodities. Mas qualquer análise que se faça na balança comercial, e a despeito dos recordes no seu saldo que vem ocorrendo, o sentimento que se tem é de que estamos jogando fora preciosa oportunidade para crescer mais e melhor. Há sim perda de exportações, e do lado das importações, o substancialmente vem sendo bancado por produtos de consumo. Fossem máquinas e equipamentos, e aí sim se poderia dizer que o país está programando uma nova onda de crescimento em tecnologia, o que provocaria, por sua vez, acréscimos de produtividades nas atuais plantas industriais, melhorando nossa capacidade de competição. Mas, in felizmente, não é isso que se observa.
No post seguinte, reproduzimos artigo “Mitos sobre a política cambial”, escrito por Antonio Corrêa de Lacerda, que é professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e autor, entre outros livros, de "Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil" (Saraiva). Foi presidente do Cofecon e da SOBEET.
Lacerda segue na mesma linha de análise que há de um ano estamos fazendo, e alerta sobre as conseqüências negativas para a economia, principalmente no médio e longo prazos, e mesmo assim também faz uma abordagem dos problemas que já estamos vivendo por conta da excessiva valorização da nossa moeda diante do dólar.
Seria interessante que se abandonasse a demagogia e o discurso inconseqüente, e nos ativéssemos naquilo que realmente importa: o país perde empregos, renda, o governo perde receitas, as empresas locais perdem mercados, e o país como um todo perde oportunidades preciosas de crescimento elevado face o momento favorável da economia mundial. Como afirmamos, o câmbio nos níveis em que o governo vem sustentando, só se justificam em duas situações: uma, para incentivar o ingresso de tecnologia. Pelos números, isto se estiver ocorrendo é ainda ínfimo. E a circunstância seria para a contenção da inflação que, no caso brasileiro, já se acha contida pelos juros praticados internamente.
Portanto, há espaço sim para o governo intervir. O método de que se tem utilizado o BC é o único que lhe cabe, a volumosa aquisição de dólares no mercado para tentar conter a valorização da moeda. Porém, pelo lado do Ministério Fazenda há sim outras alternativas à disposição e que já deveriam estar em uso. O que nos parece perigoso é a equipe econômica retardar o uso destas alternativas, praticadas em outras economias, de vez que a aquisição volumosa e diária de dólares pelo BC além de muito pouco efeito estar produzindo, também provoca uma sangria: de onde o BC está retirando os recursos para esta volumosa aquisição freqüente de dólares ? Pois é, isto um dia terá inevitavelmente conseqüências danosas para o país. Seria conveniente o governo não ficar tão embevecido pelos números das “reservas” que estão acumulando além do necessário, e procurasse tirar melhor proveito para o país deste período tão virtuoso da economia internacional. Talvez oportunidade igual não se venha ter no curto prazo.
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
Este espaço tem sido uma voz quase isolada, já há mais de um ano, nas duas questões acima: exportações e câmbio. Muito embora ambas se correlacionem, cada uma, ao seu modo, traz implicações negativas para a economia do país.
Na questão do câmbio, desde o princípio fomos contrários ao decreto federal que desonerou seu ingresso para financiamento da dívida pública. E por quê? Porque praticando os juros que o Brasil, não se precisava adicionar mais um incentivo para o ingresso de dólares no país.
Já havia em fevereiro de 2006 um ingresso forte por conta das exportações. Como resultado, o real já vinha em valorização crescente em relação ao dólar, e se nada fosse feito para conter esta valorização, o país deixaria de exportar inúmeros produtos tradicionais em sua pauta comercial, para passar a importá-los, provocando dificuldades no mercado interno, em segmentos grandes empregadores de mão de obra, tais como por exemplo calçados e têxteis. Ou seja, muitos postos de trabalho acabariam fechados, o que seria danoso para um país com média prolongada de 10,0 % em seu nível de desemprego. Mesmo que o governo tenha desonerado inúmeros produtos no segmento de construção civil, o que provocou, claro, uma reativação virtuosa numa área com imenso emprego de mão de obra, este processo acabou como que anulado pelo desemprego de outras áreas. Tanto que isto é verdade que estamos, mais de um ano depois, mesmo diante de milhares de novas vagas, mantendo o mesmo percentual de 10% no desemprego.
Estivesse o real em relação ao dólar, na casa de R$ 2,40 / 2,50, e por certo, as exportações seriam, no mínimo, em torno de 40 a 60% maiores. Deste modo, isto estaria repercutindo positivamente na manutenção de atuais postos de trabalho, além de estar gerando milhares de novas vagas, contribuindo, assim, substancialmente para elevar a própria arrecadação de impostos, e contribuições, principalmente previdenciárias, elevando o padrão de renda, aumentando o consumo interno através da geração de renda, e não de crédito como vemos hoje.
Claro que no governo se está olhando para a contribuição que o câmbio nos atuais traz para a contenção da inflação. Torna-se desnecessário este freio pela política monetária praticada pelo Banco Central, que muitos julgaram excessiva. Negativo. Aqui, o BC fez o seu papel. Faltou foi sensibilidade à equipe econômica para rever a política cambial, o que por certo, em condições opostas, e mesmo diante dos juros internos praticados, manteriam a inflação sob controle, e sem a necessidade de mais um freio que acaba desarrumando segmentos que vinham se portando a contento.
Estes excessos de “cautelas” só não causaram estrago maior na economia do país, em função do mundo estar crescendo em médios em torno de 7% ano e por conta dos preços das commodities. Mas qualquer análise que se faça na balança comercial, e a despeito dos recordes no seu saldo que vem ocorrendo, o sentimento que se tem é de que estamos jogando fora preciosa oportunidade para crescer mais e melhor. Há sim perda de exportações, e do lado das importações, o substancialmente vem sendo bancado por produtos de consumo. Fossem máquinas e equipamentos, e aí sim se poderia dizer que o país está programando uma nova onda de crescimento em tecnologia, o que provocaria, por sua vez, acréscimos de produtividades nas atuais plantas industriais, melhorando nossa capacidade de competição. Mas, in felizmente, não é isso que se observa.
No post seguinte, reproduzimos artigo “Mitos sobre a política cambial”, escrito por Antonio Corrêa de Lacerda, que é professor-doutor do departamento de economia da PUC-SP e autor, entre outros livros, de "Globalização e Investimento Estrangeiro no Brasil" (Saraiva). Foi presidente do Cofecon e da SOBEET.
Lacerda segue na mesma linha de análise que há de um ano estamos fazendo, e alerta sobre as conseqüências negativas para a economia, principalmente no médio e longo prazos, e mesmo assim também faz uma abordagem dos problemas que já estamos vivendo por conta da excessiva valorização da nossa moeda diante do dólar.
Seria interessante que se abandonasse a demagogia e o discurso inconseqüente, e nos ativéssemos naquilo que realmente importa: o país perde empregos, renda, o governo perde receitas, as empresas locais perdem mercados, e o país como um todo perde oportunidades preciosas de crescimento elevado face o momento favorável da economia mundial. Como afirmamos, o câmbio nos níveis em que o governo vem sustentando, só se justificam em duas situações: uma, para incentivar o ingresso de tecnologia. Pelos números, isto se estiver ocorrendo é ainda ínfimo. E a circunstância seria para a contenção da inflação que, no caso brasileiro, já se acha contida pelos juros praticados internamente.
Portanto, há espaço sim para o governo intervir. O método de que se tem utilizado o BC é o único que lhe cabe, a volumosa aquisição de dólares no mercado para tentar conter a valorização da moeda. Porém, pelo lado do Ministério Fazenda há sim outras alternativas à disposição e que já deveriam estar em uso. O que nos parece perigoso é a equipe econômica retardar o uso destas alternativas, praticadas em outras economias, de vez que a aquisição volumosa e diária de dólares pelo BC além de muito pouco efeito estar produzindo, também provoca uma sangria: de onde o BC está retirando os recursos para esta volumosa aquisição freqüente de dólares ? Pois é, isto um dia terá inevitavelmente conseqüências danosas para o país. Seria conveniente o governo não ficar tão embevecido pelos números das “reservas” que estão acumulando além do necessário, e procurasse tirar melhor proveito para o país deste período tão virtuoso da economia internacional. Talvez oportunidade igual não se venha ter no curto prazo.