segunda-feira, junho 25, 2007

Autópsia do gigantismo

Guilherme Fiúza, Política & Cia., NoMínimo

Se o Brasil tivesse o tamanho da Suíça, haveria muito menos idéias geniais por aqui.

A Amazônia, por exemplo. Os brasileiros continuam na dúvida se aqueles 5 milhões de quilômetros quadrados são símbolo de orgulho ou de atraso. Até outro dia mesmo, a idéia do Brasil Grande era lixo dos milicos. Agora, no embalo do sucesso (sic) de China, Índia e companhia, tamanho volta a ser documento. O Brasil Grande está na moda de novo.

A doença brasileira do superlativo já foi criticada de quase todas as formas racionais. Nessas horas, a arte vem dar uma mãozinha valiosa.

Como pode um plano de investimentos de 500 bilhões de reais como o PAC parecer impalpável, suscitar dúvidas, controvérsia, dificuldades de se visualizar onde vai chover essa montanha de dinheiro? Na Suíça isso não seria possível. Nem no Lesoto.

Mas o Brasil é grande. Tão grande, que pode passar anos discutindo o que não existe, e ninguém notar. Uma hidrelétrica, um projeto mineral, uma estrada podem estar em tantos lugares, que o país pode nem perceber se não estiverem em lugar nenhum.

Essa é a sensação estranha, desconcertante, que se tem assistindo ao filme “Meteoro”, de Diego de la Texera, em cartaz nos cinemas.

É a história de uma estrada que “desapareceu” e ninguém notou. Só a equipe que foi abandonada pelo governo numa região “inexistente” entre a Bahia e o Piauí, no sertão onde o Nordeste não sabe se vira Norte ou Centro-Oeste, lugar perfeito para o sepultamento clandestino de uma utopia juscelinista – tranqüilamente substituída por outra utopia militar, como se o Brasil fosse uma prancheta ambulante.

O problema é que às vezes, nessa prancheta, embora quase ninguém possa ver a olho nu, existem coisas reais – eventualmente, gente. De carne e osso.

E tinha gente – bastante gente – na célula inicial da estrada radial Brasília-Fortaleza, abortada no meio do nada, com a naturalidade com que se puxa um bilhão para cá, um bilhão para lá, na contabilidade fantástica dos planos de metas.

Mas é chocante ver a prancheta ao vivo. Ela tem dor, tem sede, tem agonia, tem esperança. Os personagens retratados em “Meteoro”, cujas vidas foram rabiscadas por uma canetada em Brasília, não tinham para onde ir. Não tinham, porque o Brasil é grande. Tão grande, que há lugares de onde não adianta tentar sair. Você morrerá antes de chegar à próxima região habitável.

De um dia para o outro, os aviões pararam de levar equipamentos, suprimentos, água. Simplesmente sumiram. Pelo rádio, não chegava mais nenhuma ordem. O Brasil Grande desistira daquele pedacinho de megalomania. Era só mais uma ossada desenvolvimentista a ser deixada para trás.

Aquele grupo de pessoas encarregadas de tornar realidade a Brasília-Fortaleza estava sumariamente condenado a virar um bando de almas penadas. Sobreviveram por algum tempo administrando sabe Deus como aquela situação limite, mas logo a escassez se imporia, levando-os a agonizar como ratos. Até serem salvos por um milagre.

Um milagre que lhes permitiu recomeçar a vida sem sair dali. Com novas regras, novos amores, novas esperanças. No meio do nada, os personagens heróicos de “Meteoro” fundam uma comunidade insólita, improvável. Tão improvável quanto o Brasil Grande e sua doença superlativa. Mas, certamente, mais real do que ele.