segunda-feira, junho 25, 2007

A ética do palavrão

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

Presidente da República e com crescentes dores na coluna, o general Figueiredo passou a ir a São Paulo, em alguns fins de semana, no segundo semestre de 84, para tratar-se com o médico japonês Nishimura. Numa noite de sábado, os jornalistas, na recepção do hotel César Park, esperavam a saída do presidente para um churrasco na casa do empresário Mathias Machline. Ele passou sem falar com ninguém, entrou no automóvel e, lá de dentro, acenou chamando o jornalista Pedro Rogério, da TV Globo.

Pedro Rogério enfiou o rosto pela janela do carro para poder ouvi-lo. Figueiredo perguntou se naquela noite ele iria falar com Roberto Marinho. O jornalista respondeu que não era costume um repórter falar diretamente com o patrão e, no caso dele, o interlocutor era o editor-geral da Globo em Brasília, Antonio Brito. Mas se o presidente achasse o assunto muito importante, é claro que ele telefonaria para o doutor Roberto. Figueiredo pediu: - É importante, sim. Mande ele à puta que o pariu! Deu uma gargalhada, mandou o motorista seguir e ainda insistiu: - Mas telefone mesmo, ouviu?

Pedro Rogério
Pedro Rogério, mineiro civilizado e sábio, não ia entrar naquela briga de cachorro grande. Não telefonou. Apenas contou ao chefe Antonio Brito. Mas agora publicou o recado em mais um delicioso livro de memórias de jornalista: "Jornal Amoroso - Edição Vespertina"(Editora Thesaurus, Brasília).

É uma serie de excelentes histórias e perfis, relembrando políticos e escritores (Juscelino, Afonso Arinos, Milton Campos, Tancredo, Magalhães Pinto, Alberto Deodato, Oscar Correia, Sarney, Collor, Otto Lara Rezende, Silvio Santos, Stroessener, outros), que conheceu em jornal e televisão. Começa por uma conversa com Geisel em 79, em Teresópolis, à beira de uma caipirinha de vodca, dez dias depois de ele deixar a Presidência. - Qual é o conselho que o senhor dá ao presidente Figueiredo? - Convivência e cooperação. E muita coordenação.

Renam
O Conselho de Ética do Senado está deixando o País perplexo e indignado. Virou um descoordenado palavrão, um pesadelo ético. Se o Senado é aquilo, para que o Senado? Eles se dizem a "Câmara Alta". Dificilmente se veria espetáculo mais rasteiro. Um show macabro de suplentes sem voto e sem nível, tentando defender o que eles mesmos tornaram indefensável.

O senador Renan, encurralado pela imprensa, acusado de pagar a pensão da filha dele e de uma jornalista com dinheiro de empreiteira, sem ninguém pedir mandou para o Conselho de Ética uma pilha de papéis (notas fiscais, recibos, cópias de cheques, guias de transportes agrícolas, etc) para mostrar "a venda de 2.213 cabeças de gado de três fazendas", o que é folgadamente suficiente para provar que tem dinheiro fácil para pagar.

Zorra agrícola
O Conselho encarregou o diretor de Controle Interno do Senado e uma equipe do Instituto de Criminalística da Policia Federal de irem a Alagoas conferir os documentos. A emenda foi pior que o soneto. O diretor do Senado atestou que as guias, notas fiscais, recibos e cheques são autênticos. Mas o laudo da Polícia Federal diz que a papelada não corresponde aos negócios: - "Não foi possível concluir pela autenticidade das notas fiscais, uma vez que não foi possível afirmar que as transferências comerciais ali descritas efetivamente ocorreram".

E diz mais a PF: - "Não explica a venda de 1.060 cabeças de gado, um negócio que teria lhe rendido R$ 1 milhão". (Explica apenas a venda de 1.153 cabeças). "Grande parte dos destinatários do gado vendido não coincide com aqueles informados nas notas fiscais". Conclusão: uma zorra agrícola e contabil total.

Esquizofrenia
O senador diz que o processo é "esquizofrênico". E é. E quem mais contribuiu para a esquizofrenia foi exatamente ele. (Aurelio - "Esquizofrenia: "varias formas clínicas de psicopatia e distúrbios mentais").

A acusação era de que um funcionário de uma empreiteira pagava as contas. Quando o senador disse que o dinheiro era dele, que seu Imposto de Renda provava que tinha recursos para pagar a pensão do próprio bolso e que fez um velho amigo portador dos pagamentos para manter o relacionamento em sigilo, ninguém apresentou provas de que o dinheiro era da empreiteira. A prova cabe a quem acusa e a justiça já havia fixado o valor da pensão.

De repente, em incrível gesto de auto-suficiência e lerdeza, o senador aparece com um balaio de comprovantes comerciais, que a Receita Federal nunca lhe havia pedido e também agora ninguém lhe pediu, e joga na praça. Se estivessem todos certinhos, mesmo assim não haveria sentido, por serem dispensáveis. E os papéis voaram ao vento no redemoinho do escândalo.

Isso é erro de advogados poderosos e arrogantes: Eduardo Ferrão e o sócio Nelson Jobim. O processo vai parar no foro privilegiado do Supremo, mas agora é tarde. Renan perdeu as condições políticas de continuar na presidência do Senado.Não por falta de ética parlamentar, mas de ética vacum