terça-feira, junho 12, 2007

Sarkozy exige "ganhos reais" para rever protecionismo

BERLIM - Depois de ameaçar com o veto um possível acordo da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), o presidente francês, Nicolas Sarkozy, declarou ontem que não se pode ser "ingênuo" nessa questão e que seu governo vai defender a proteção do mercado agrícola com o mesmo afinco com que os Estados Unidos se mantiverem reticentes ao corte nos subsídios a seus agricultores.

A farpa atirada por Sarkozy, entretanto, não estremeceu o otimismo exacerbado sobre a conclusão em "tempo menor" da Rodada Doha com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva relatou ter saído da reunião do G-8 com os cinco emergentes e mais dez países africanos. "Eu estou convencido de que estamos apenas por um fio (da conclusão da Rodada), como se fosse um jogo de pôquer."

Para o presidente brasileiro, cada um está com suas cartas escondidas, pedindo mais cartas e colocando mais fichas na mesa mas sempree haverá um momento em que o jogo vai aparecer", afirmou. "Eu saí convencido de que todos querem fazer o acordo. Portanto, não se surpreendam se, em um tempo menor do que vocês esperam, seja anunciado finalmente um acordo da Rodada de Doha. Aquilo que parecia impossível vai acontecer", enfatiza Lula.

"A ingenuidade, nós precisamos deixá-la no vestiário", alertou o presidente da França, Nicolas Sarcozy, ao final do encontro anual do G-8, as sete economias mais industrializadas do mundo e a Rússia, com países emergentes, entre os quais o Brasil e a Índia. Ele deixou claro que não mudará a posição tradicional da França em relação ao protecionismo agrícola enquanto a Europa não obtiver ganhos reais na Rodada.

Hora crucial para fechar acordo
"Disse muito francamente ao presidente (dos Estados Unidos, George) Bush: somente teremos qualquer acordo se houver reciprocidade", afirmou o francês. Referiu-se a um dos principais obstáculos das negociações - a insistência dos americanos em reduzir seus subsídios só quando os europeus cortarem suas tarifas de importação.

"Todos concordam que as negociações da OMC estão em sua hora crucial", afirmou Angela Merkel, chanceler alemã. Lula, entretanto, confessou não saber se a conclusão da Rodada se dará até o final deste mês - a última fresta da janela de oportunidade política para a finalização do acordo da OMC. Apesar do período exíguo que resta, a negociação ocupou uma espécie de rodapé do encontro do G-8 no balneário de Heiligendamm, na Alemanha.

O assunto só foi tratado ontem, durante o almoço entre os oito sócios do G-8 com representantes das cinco economias emergentes - África do Sul, Brasil, China, Índia e México - e os dez países africanos convidados. O tema não constou da declaração final do G-8. Segundo Lula, o fato mais relevante desse processo negociador na OMC será dar a "chance" para que os países mais pobres sejam os vencedores.

Isso envolverá, como acrescentou, concessões das frentes em jogo - a maior abertura do mercado agrícola da União Européia, a redução dos subsídios domésticos pelos Estados Unidos e a flexibilização das posições do Brasil e de seus sócios do G-20, o principal grupo de economias em desenvolvimento, sobre o acesso a seus mercados industriais. "Se não quisermos fazer essas concessões, vamos ter de assumir a (responsabilidade) de dizer que não queremos o acordo."

Em posição oposta à de Sarkozy, Lula destacou que havia encontrado disposição política dos líderes presidentes em torno da conclusão da Rodada, que se arrasta há seis anos e que não terá condições de ser levada adiante no segundo semestre. Relatou que, em dezembro passado, telefonou para o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e a chanceler alemã, Angela Merkel, e o antecessor de Sarkozy, Jacques Chirac, para insistir na necessidade de concluir a negociação.

Segundo Lula," esse problema não é mais econômico. Esse problema é eminentemente político e vamos ter de tomar uma decisão política. O econômico não vai ferir a economia de nenhum país. Alguém pode perder alguma coisinha, alguém pode empatar", contou Lula.