terça-feira, julho 17, 2007

Berzoniev, eis o homem

Reinaldo Azevedo

"Não aceitamos linchamento público nem constrangimento para forçar o presidente Renan Calheiros a se licenciar ou renunciar". A frase é de Ricardo Berzoini, presidente do PT. Mais do que uma opinião sobre o caso Renan, trata-se de uma manifestação de caráter: do partido e de seu presidente.

Renan Calheiros está de tal sorte queimado, que a sua defesa será sempre incômoda. Oportunista como é, o PT a tanto não se dedicaria se não visse na desgraça do presidente do Senado um risco a sua própria posição. O partido é conhecido por jogar aliados na fogueira se for preciso. Só não joga quando pode se queimar também. Renan, sabemos, é um homem que já disse não “ter limites” para se defender, e o recado foi dado aos petistas. Só uma nota: Renan está queimado, como eu disse, não por conta do suposto linchamento, mas porque os documentos que apresentou como prova de seu rendimento são frios; porque não consegue se explicar. Voltemos.

Procurem nos sites noticiosos a foto do dia de Berzoini. Os leitores recentes deste blog talvez não saibam: desde o Primeira Leitura, chamo o presidente do PT de “Berzoniev”, emprestando a seu nome um sotaque que remete à antiga burocracia soviética. Ele é, no PT, o meu exemplo do perfeito (para eles) burocrata. Sindicalista — era bancário —, integra o núcleo duro do partido e da CUT.Uma digressão ligeira: um dia, algum historiador — não da USP, naturalmente — ainda vai-se interessar pela importância dessa categoria na formação do PT. Gushiken era bancário. O “aloprado” Expedito Veloso era bancário. Waldomiro Diniz era bancário. Paulo Bernardo era bancário. Olívio Dutra era bancário. Bancários, se quiserem, sabem tudo sobre todo mundo... Fim da digressão.

Entrevistei Berzoini no Roda Viva, quando ele estava às voltas com a reforma da Previdência — que eu apoiava, diga-se. No programa, limitei-me a lembrar que quem não a apoiava antes era o PT. O homem é dono de uma palidez perigosa, meio macilenta. César, o Júlio (ao menos o de Shakespeare), temia os muito magros; eu temo os que não coram nunca. Berzoini tentou demonstrar que Lula tinha a legitimidade que outros não tinham para fazer a reforma. Impassível.Ainda não era o seu grande momento. Afirmou, monocórdio, que, a depender do caso, as então novas regras da aposentadoria poderiam render aos beneficiários ganhos até superiores aos então vigentes. Eu disse que era impossível. Ele disse que era. Eu neguei. Ele insistiu. Eu o desafiei a demonstrar com números. Ele topou o desafio no ar (vale a pena ver o CD do programa). Eu pus, então, o site Primeira Leitura à disposição e afirmei que publicaria os cálculos e admitiria meu erro.

Estou esperando os números até hoje. Depois daquilo, entre suas atitudes notáveis, contam-se ter mandado para a fila do recadastramento velhinhos de 90 anos e a admissão de que sabia que um grupo de petistas andava atrás de um dossiê. Durante um mês, no site, publiquei diariamente o pedido daquelas contas. O então ministro fez até um assessor seu escrever um texto malcriado contra mim. E nada dos números. Até o dia em que o rapaz, honesto, me disse: “Reinaldo, não há número nenhum. Você sabe disso”.

Berzoniev, eis o homem. Agora em defesa de Renan