terça-feira, julho 17, 2007

TRAPOS & FARRAPOS...

EXPLICAÇÕES CHULAS DOS ARISTOCRATAS DO PODER...
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

As vaias endereçadas à Lula na festa de abertura dos Jogos Panamericanos parecem ainda renderem alguns “caldos”. E há duas correntes, ambas totalmente equivocadas, que “apresentam” suas teorias esquizofrênicas para explicar um acontecimento que nada teve de especial, muito menos de horroroso. Uma corrente, a dos puxa-sacos, e aí se inclua o ministro dos Esportes, Orlando Silva, e também o governador Sérgio Cabral, partiram para ao ataque: as vaias foram orquestradas, foi uma manipulação dirigida contra a sua “excelência”, o presidente Lula, uma espécie de ato conspiratório contra sei lá o quê, mas eles querem mais é se fazerem de vítimas, do que fazer a adequada leitura dos fatos.

Outra corrente, esta sequer mereceria crédito, quanto mais que se perdesse tempo com ela. Ela diz que a vaia no Maracanã só foi possível porque não havia povo, só classe média e os ricos. E desde quando para ser povo se precisa ser obrigatoriamente pobre ? Pura sandice, falta do que dizer ou escrever. Lá havia povo sim, e tanto, que vários canais entrevistaram as pessoas que se dirigiam ao estádio, e muitas vinham do nordeste, do sul, do norte, do centro-oeste, do sudeste. Ou seja, eram noventa mil brasileiros vindos de várias partes do país, e na sua maioria pareciam gente simples, pessoas comuns. Assim, tanto num caso, o da teoria conspiratória, quanto no outro, a falta de “povo” no Maracanã, caem por terra diante dos fatos, diante da impossibilidade de se combinar com 90 mil pessoas vindas de vários estados brasileiros que se produzisse uma vaia colossal a cada menção do nome ou a simples presença no telão do estádio, do cidadão de nome Lula.

Dizer que a maioria era de classe média até pode ser. O preço dos ingressos talvez ficasse inacessível para a grande maioria da população. E daí ? Teria aquela classe que sustenta um governo e um Estado perdulários, motivos para comemoração ? Ela que arca com 40% do que ganha, precisa depois de anos de estudo e formação intensa na sua atividade profissional, se contentar em ver reduzidos seus ganhos que estão sendo achatados cada vez mais para baixo, para abrigar pessoas de muito menor qualificação e formação, ocupando as mesmas funções com salários cada vez mais inferiores ? Que motivos teria esta classe de pessoas, parte importante do povo, para aplaudir um governante que nunca lhe dispensou a menor atenção e até faz questão de fazer pouco caso de seu trabalho e do pouco patrimônio adquirido que o trabalho lhe permitiu adquirir, e ainda nutre um preconceito inexplicável com forte cheiro de despeito, recalque e inveja ?

A classe média de hoje, foi a classe pobre de ontem. A maioria de médicos, engenheiros, advogados, dentistas, economistas, são formados por gente filhos de pessoas pobres que se sacrificaram um bocado para formar seus filhos e lhes permitir uma vida melhor e mais digna. E é contra estes que Lula, e eu diria todos os petistas, dirigem seus torpedos de ressentimento que, como disse, demonstram apenas sua inveja e despeito. E é sobre esta atual classe média que pesa o ônus de sustentar uma classe política e sindical formada de vagabundos e canalhas. Ou agora, apenas por que Lula foi reeleito com, vá lá, 60 milhões de votos, o restante do eleitorado e da população do país não têm o direito de vaiá-lo ? Apenas para lembrar: aqueles quase 60 milhões de votos representam apenas um terço da população do país, que fique claro. Onde está escrito que ele deva ser reverenciado como um Deus, quando tudo que tem feito é destilar um ódio incontido contra quem estudou e trabalhou a vida toda para, de forma absolutamente meritória, ter hoje melhor qualidade de vida, enquanto grande número foi pra política, por absoluta inapetência com estudo e o trabalho ? Ora, façam-me o favor: inventem outra lorota, esta, definitivamente, não cola de jeito algum.

Lula foi vaiado sim, por ter chegado atrasado, e muito atrasado, para uma festa em que grande parte dos presentes pagara ingressos para entrar, ao passo que ele e sua comitiva de apanigüados entrou de graça. E não venham com esta balela de se dizer que o governo federal liberou R$ 1,8 bilhão de reais. Primeiro, que liberou um dinheiro que não era dele, é do povo que paga impostos, e que não precisa mamar aposentadorias fraudulentas de “anistiado político” para ganhar a vida. Segundo, que o volume de recursos que realmente foi liberado é bem menos do que a metade do tal R$ 1,8 bilhão. E só foi liberado porque o governador era seu aliado político, porque se não o fosse dificilmente a verba seria entregue para a conclusão das obras. E não se pode esquecer de um detalhe importante: quando se assina um protocolo para a realização dos jogos, o governo federal também se compromete com as obras , ele não fica feito um alienado no processo de organização. Se fez o que fez para que o resultado final pudesse ser alcançado, nada mais fez do que sua obrigação, e porque o que estava em jogo era o nome do Brasil, e não apenas do Rio de Janeiro. Mas fazer sua obrigação no caso, não será motivo para que as pessoas que se sentem prejudicadas pelo governo Lula se valham de uma oportunidade pública para vaiar sua excelência. Deveria ter tido uma atitude mais digna e cumprido seu papel até o fim, e não fugir e ficar com medo de sofrer nova vaia. A vaidade, a arrogância e a presunção, no final, para o senhor Luiz Inácio, acabaram falando mais alto do que cumprir com dignidade seu papel de governante de uma país livre, numa cerimônia festiva de um evento internacional.

Portanto, o público presente ao Maracanã foi duplamente alvo da deselegância do senhor Lula: primeiro, ao atrasar excessivamente a cerimônia de início da festa, por não saber cumprir como deveria com o horário marcado. Isto é irritante até em circo mambembe, quanto mais ali, numa cerimônia pública, em que as pessoas se deslocaram para assistir uma festa que pagaram para nela ingressar. E segunda deselegância, ao recuar da proclamação de abertura dos jogos. Portanto, nada de querer bancar o vítima, ou alegar alguma “conspiração” contra a sua pessoa. Que faça uma reflexão bem sincera, e peça desculpas ao povo do Rio de Janeiro e até brasileiro, porque governante ser vaiado nunca foi novidade em lugar algum do mundo. Novidade é a baixa freqüência de grandeza do governante vaiado renunciar seu papel.

E aqui fica um recado: quando os militantes petistas, teleguiados por gente da CUT, comparece em cerimônias de outros governantes para vaiar, apupar, agir com truculência, estendendo cartazes de protestos, os mesmos que agora dizem que não havia povo no Maracanã nada comentam. Agora, quando seus bandoleiros prediletos sofrem na pele o mesmo tratamento com que tratam os outros, aí querem ver chifres em cabeça de cavalo.

Portanto, classe média, senhores, é povo também, muito embora seja um parte do povo que não precisa da esmola oficial para viverem. Por serem trabalhadores, exercem suas profissões com independência, sem precisarem escorregar na bajulação remelenta e disforme dos indignos. E, por ser independente, tem todo o direito de vaiar a Lula como a qualquer político safado deste país. Eles bancam a corte faraônica dos privilégios imorais com que se deliciam os faraós e seus aristocratas e fidalgos. Portanto, ao vaiar Lula e Cabral, apenas exerciam o direito independente de lhes dizer: estamos de saco cheio de sustentar vossa vagabundagem. Apenas isso.

Nesta história, portanto, há um enorme baú de obviedades, como lembra bem o Reinaldo Azevedo:

Obviedades
Reinaldo Azevedo
.
Ah, sim. E há uma coisa óbvia nesta história da vaia: os mesmos que vaiaram Lula vaiaram também a delegação americana e aplaudiram a cubana, o que registrei aqui, enquanto estava acontecendo. Teria sido orientação de Cesar Maia?
Por que esse fato tem alguma relevância? Porque, como se vê, não foram vaias, vá lá, ideologicamente coerentes. Os brasileiros presentes ao Maracanã estão, a exemplo da população de todo o mundo, expostos à militância antiamericana.
Mas Lula... Ninguém ali o conhecia só de ouvir falar. Todos o conhecem na pele. Sabem por que aquelas pessoas vaiaram Lula? Porque estão descontentes com Lula. Um petista pode achar que isso não existe. Na democracia, quem tem a maioria leva — mas não leva a unanimidade. O Brasil tem 180 milhões de pessoas e 124 milhões de eleitores. Lula foi eleito com 58 milhões de votos.