terça-feira, julho 17, 2007

Regra da ONU exclui empresas brasileiras

Norberto Staviski

Novas exigências da Organização das Nações Unidas (ONU) para projetos de captura de gases de efeito estufa afetaram em cheio as empresas brasileiras. A tecnologia adotada até então, dominada pela indústria nacional, está sendo trocada pela de empresas alemãs, conforme relata a Sadia. A produtora de alimentos está revendo todo o seu projeto de captação de gases, aprovado pela ONU para Mudanças Climáticas no início do ano passado.

- Houve uma mudança brusca na metodologia da ONU para a suinocultura anunciada em setembro de 2006 e agora ela exige maior sofisticação no equipamento e maior rigor na medição do carbono capturado - afirma a diretora do Instituto Sadia de Sustentabilidade, Meire Ferreira. - O problema é que estas exigências estão atreladas à aquisição de equipamentos de empresas e de tecnologia exclusivamente alemãs, o que elevou muito os custos do projeto.

As mudanças nos critérios de cálculo de emissão da ONU reduzem em 50% o potencial de produção de carbono e elevam o custo do processo. Inicialmente, o objetivo da Sadia era o de instalar biodigestores - equipamentos que capturam gases do efeito estufa - nas 3,5 mil granjas integradas de suinocultores. A meta era vender 2,4 milhões de toneladas até o final de 2012, com os quais a empresa esperava receber cerca de R$ 80 milhões.

- Só vamos poder implantar os biodigestores do projeto em um terço das granjas - diz Meire.

A Sadia obteve R$ 60,5 milhões no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar todo o programa de seqüestro do metano produzido pela sua suinocultura integrada.

- Temos de buscar novas alternativas no BNDES ou uma nova fonte de recursos para os produtores restantes - informa.

O programa, que utiliza o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), previsto no Protocolo de Kyoto, está sendo implantado nas regiões de Três Passos (RS), Concórdia (SC), Toledo (PR) e Uberlândia (MG). Até o momento, 92,5% dos integrados da Sadia aderiram ao 3S.

- A ONU, com suas medidas mais rigorosas, atrasou em pelo menos 10 meses o nosso projeto porque não sabíamos o que fazer - aponta a diretora. - De qualquer maneira, o prazo de entrega do primeiro lote e do crédito negociado estão mantidos porque a Sadia tem capacidade e bastante folga para honrar o compromisso.

O preço da tonelada do carbono está hoje entre 10 e 12 euros, mas o valor é estabelecido no ato de entrega - pelo preço do dia ele já bateu 20 euros. Numa primeira estimativa, feita com os critérios antigos da ONU, a empresa acreditava ter disponíveis para oferecer ao mercado cerca de 10 milhões de toneladas de carbono. Hoje, o número com base nos novos critérios ainda não está calculado.

Nos planos da Sadia, além de possibilitar a comercialização do crédito de carbono, o uso do sistema de biodigestores poderia incrementar a renda do pequeno produtor, oferecendo subprodutos como estoque de biofertilizante para uso agrícola, biogás para utilização como energia elétrica ou gás de cozinha, também reduzindo nas granjas o mau cheiro característico da suinocultura.

- A produção de energia para consumo próprio, por enquanto, também é inviável pelo alto custo dos equipamentos com o que o produtor não pode arcar - ressalta Meire. - Mas é uma alternativa que não desprezamos para o futuro.

Neste projeto, a matéria orgânica usada nos biodigestores é proveniente dos resíduos gerados pelos suínos. Esses dejetos são fermentados por bactérias em tanques cobertos, evitando a emissão na atmosfera de gás metano (CH4), 21 vezes mais poluente que o dióxido de carbono (CO2) ou gás carbônico.