segunda-feira, agosto 27, 2007

Lula acertou no voto

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Com os números não se briga: vale a análise que busca interpretá-los. A introdução enquadra o esforço isento para a tentativa de avaliar a importância e o alcance político eleitoral dos últimos dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento Social sobre a jóia da coroa do principal programa do governo na área social: o Bolsa Família e a sua impressionante disparada na rota do sucesso.

São números para ninguém botar defeito. Beneficia a cerca de 46 milhões de pessoas, um entre quatro brasileiros que compõem a base da popularidade do presidente Lula nas áreas mais carentes do Norte e do Nordeste, responsável pela ampla vitória na reeleição.

É esforço perdido da oposição investir contra a blindagem absolutamente invulnerável. Por muitas e compreensíveis razões. As restrições sobre o formato demagógico e corporativista do pacote que unificou o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação e o Auxílio Gás - lançados no governo de Fernando Henrique - não atingem, não raspam pela pele de milhões que vegetam à margem da sociedade, desligados do ruído dos escândalos que mancham o governo Lula e atingem o núcleo dirigente do PT e a sua bancada.

Basta alargar o campo da visão para enxergar o que todos sabem, mas costumam esquecer. O cadastro dos beneficiados alerta para as dificuldades de vida de famílias cuja renda não ultrapassa os R$ 120 per capita. E apenas 33,9% das famílias atendidas pelo programa têm acesso à rede pública de esgoto.

A informação que chega pelas redes de TV e emissoras de rádio não fazem a cabeça de um eleitorado distante da roubalheira do mensalão e do caixa 2, da crise moral que assola o Congresso, do baixo rendimento administrativo do governo com o seu ministério inchado por 37 ministros e secretários que se espremem nos gabinetes superlotados da Esplanada. Fofocas de Brasília, críticas da imprensa, o berreiro da oposição chegam como ecos amortecidos de um outro planeta.

Inútil insistir na especulação sobre as transparentes razões do prestígio pessoal de Lula, imune às vaias e contradições dos seus improvisos torrenciais, às viagens domésticas e internacionais nas asas do Aerolula e as muitas e notórias deficiências na administração com mais buracos do que os barracos das favelas.

Certamente que não foi por acaso ou por um estalo da sorte que o torneiro mecânico buscou na inspiração das suas origens o enfoque prioritário nas áreas mais carentes. Celeiros de votos soltos, sem dono nem assistência, dispersos nos grotões da miséria. Talvez a surpresa fique por conta da rapidez da colheita eleitoral, conferida na eleição para o primeiro mandato e ampliado pelo bis, passando ao largo dos prenúncios nas três derrotas do aprendizado.

No sufoco que inquieta o governo com a reprise do show do mensalão e do caixa 2, das CPIs, a incerteza sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da denúncia arrasadora da Procuradoria Geral de República contra os 40 acusados de receber propinas para apoiar o governo - o presidente Lula encontrou espaço para a jogada anunciada de um mutirão de obras, financiadas pelas verbas do PAC, que ainda não deslanchou.

Com os índices estáveis de popularidade escorados pelo apoio majoritário do Norte e do Nordeste, Lula move as pedras para deter a crescente rejeição nas regiões mais desenvolvidas e desprezadas nos quatro anos e quase oito meses dos dois governos emendados. E há muito a fazer na correria da urgência para corrigir o quadro de abandono da rede rodoviária, dos portos, das linhas férreas, da segurança, da saúde, da educação, do inchaço das cidades e da favelização galopante.

Uma larga mancha de milhões de votos cada dia mais arredios, com a paciência no limite da explosão.