Augusto Nunes, Jornal do Brasil
Em 13 de maio de 1959, quando o locutor do Maracanã anunciou a escalação da Seleção Brasileira para o jogo contra a Inglaterra, 100 mil torcedores vaiaram a presença de Julinho no lugar de Garrincha. Titular do time na Copa de 1954, campeão italiano pela Fiorentina, o craque do Palmeiras vestia a camisa 7 por decisão do técnico. Mas arquibancadas e gerais precisavam descarregar a frustração causada pela ausência do maior ponta-direita da história. Sobrou para Julinho.
Bom de cabeça, Júlio Botelho assimilou serenamente a manifestação hostil. No segundo minuto de jogo, livrou-se da selva de marcadores e fez um golaço. No 15º, construiu com dribles desmoralizantes e arrancadas de puro-sangue o lance que resultou no gol de Henrique - e consolidou a vitória por 2 a 0. Até o apito final, jogou como um deus. Terminada a partida, retribuiu com um sorriso tímido a ovação endereçada ao melhor em campo. Não se sentia vingado. Sentia-se feliz.
Quase 50 anos depois, quando o locutor oficial anunciou a chegada do presidente da República ao Maracanã, 70 mil gargantas vaiaram a presença de Lula na festa de abertura do Pan-2007. Reeleito em outubro, bem no retrato produzido por recentes pesquisas de opinião, Lula é um político bastante competente. E vai permanecer até 2010 no cargo que ocupa por decisão da maioria do eleitorado.
Mas a multidão precisava descarregar a indignação provocada pelo colapso da aviação civil, pela tragédia em Congonhas, pelo deboche dos companheiros federais, pelo cinismo dos pecadores, pela corrupção endêmica, pela institucionalização da mpunidade, pela inépcia dos pais da pátria, pela erosão dos alicerces sem os quais não se pode sonhar com um Brasil moderno. Sobrou para Lula.
O presidente costuma gabar-se de saber tudo de futebol. Se sabe do episódio ocorrido em 1959, não soube assimilar a lição de Julinho. O mesmo som da fúria promoveu um reserva da Seleção a estrela do espetáculo e reduziu o astro do elenco a figurante sem fala. Com a grandeza dos exemplarmente humildes, Julinho negou-se a debitar a vaia na conta do bairrismo carioca. Com a pequenez dos que jamais têm dúvidas, Lula recusou-se a enxergar um único motivo para a irritação coletiva. Tudo aquilo fora orquestrado por adversários impenitentes, sob o patrocínio dos eternos golpistas.
"Os que estão vaiando são os que mais deveriam estar aplaudindo, porque são os que mais ganharam dinheiro no meu governo", revelou na terça-feira. "A parte pobre da população é que deveria estar zangada. É só ver o quanto ganharam os banqueiros, os empresários". Lula está certo ao admitir que os ricos nunca lucraram tanto quanto no governo eleito pela turma do Bolsa Família. Engana-se ao imaginá-los saindo furtivamente de seus palácios para vaiar o benfeitor.
E vaiá-lo no Maracanã. E vaiá-lo em companhia de uma perigosa ramificação da classe média. "Essa gente levou Getúlio ao suicídio", lembrou Lula. "Essa gente fez a Marcha com Deus pela Liberdade, que resultou no golpe militar". As acusações tropeçam nas imagens da platéia que celebrou a abertura das competições. Essa gente é jovem demais para ser responsabilizada por fatos ocorridos há tanto tempo. Essa gente nem havia nascido quando Getúlio se matou. Essa gente nem sequer engatinhava em março de 1964. Não saberia marchar. Mas essa gente pode acabar acusada, merecidamente, de ter embarcado um presidente na nau dos insensatos.
Em 13 de maio de 1959, quando o locutor do Maracanã anunciou a escalação da Seleção Brasileira para o jogo contra a Inglaterra, 100 mil torcedores vaiaram a presença de Julinho no lugar de Garrincha. Titular do time na Copa de 1954, campeão italiano pela Fiorentina, o craque do Palmeiras vestia a camisa 7 por decisão do técnico. Mas arquibancadas e gerais precisavam descarregar a frustração causada pela ausência do maior ponta-direita da história. Sobrou para Julinho.
Bom de cabeça, Júlio Botelho assimilou serenamente a manifestação hostil. No segundo minuto de jogo, livrou-se da selva de marcadores e fez um golaço. No 15º, construiu com dribles desmoralizantes e arrancadas de puro-sangue o lance que resultou no gol de Henrique - e consolidou a vitória por 2 a 0. Até o apito final, jogou como um deus. Terminada a partida, retribuiu com um sorriso tímido a ovação endereçada ao melhor em campo. Não se sentia vingado. Sentia-se feliz.
Quase 50 anos depois, quando o locutor oficial anunciou a chegada do presidente da República ao Maracanã, 70 mil gargantas vaiaram a presença de Lula na festa de abertura do Pan-2007. Reeleito em outubro, bem no retrato produzido por recentes pesquisas de opinião, Lula é um político bastante competente. E vai permanecer até 2010 no cargo que ocupa por decisão da maioria do eleitorado.
Mas a multidão precisava descarregar a indignação provocada pelo colapso da aviação civil, pela tragédia em Congonhas, pelo deboche dos companheiros federais, pelo cinismo dos pecadores, pela corrupção endêmica, pela institucionalização da mpunidade, pela inépcia dos pais da pátria, pela erosão dos alicerces sem os quais não se pode sonhar com um Brasil moderno. Sobrou para Lula.
O presidente costuma gabar-se de saber tudo de futebol. Se sabe do episódio ocorrido em 1959, não soube assimilar a lição de Julinho. O mesmo som da fúria promoveu um reserva da Seleção a estrela do espetáculo e reduziu o astro do elenco a figurante sem fala. Com a grandeza dos exemplarmente humildes, Julinho negou-se a debitar a vaia na conta do bairrismo carioca. Com a pequenez dos que jamais têm dúvidas, Lula recusou-se a enxergar um único motivo para a irritação coletiva. Tudo aquilo fora orquestrado por adversários impenitentes, sob o patrocínio dos eternos golpistas.
"Os que estão vaiando são os que mais deveriam estar aplaudindo, porque são os que mais ganharam dinheiro no meu governo", revelou na terça-feira. "A parte pobre da população é que deveria estar zangada. É só ver o quanto ganharam os banqueiros, os empresários". Lula está certo ao admitir que os ricos nunca lucraram tanto quanto no governo eleito pela turma do Bolsa Família. Engana-se ao imaginá-los saindo furtivamente de seus palácios para vaiar o benfeitor.
E vaiá-lo no Maracanã. E vaiá-lo em companhia de uma perigosa ramificação da classe média. "Essa gente levou Getúlio ao suicídio", lembrou Lula. "Essa gente fez a Marcha com Deus pela Liberdade, que resultou no golpe militar". As acusações tropeçam nas imagens da platéia que celebrou a abertura das competições. Essa gente é jovem demais para ser responsabilizada por fatos ocorridos há tanto tempo. Essa gente nem havia nascido quando Getúlio se matou. Essa gente nem sequer engatinhava em março de 1964. Não saberia marchar. Mas essa gente pode acabar acusada, merecidamente, de ter embarcado um presidente na nau dos insensatos.