Ubiratan Iorio, economista, Jornal do Brasil
Certos ocupantes de altos cargos na hierarquia pública parecem crer que os cidadãos são idiotas. Ao tomar posse na presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), agora deslocado - na mais recente contra-dança do minueto que vem ensaiando desde a sua fundação - para a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo (sic), o economista (da Unicamp, naturalmente) Márcio Pochmann, secretário de Planejamento da ex-prefeita paulista, trombeteou a redefinição do papel do Estado brasileiro, que, segundo suas doutas palavras, seria "raquítico".
É preocupante que o respeitado órgão da Av. Presidente Antonio Carlos 51, abrigo de tantos economistas competentes, passe a ser comandado por quem, contra as evidências, emita juízo - falso e puramente ideológico - de tais proporções. Mais inquietante é que seu atual chefe, o excêntrico, ininteligível e "legendário" professor de Direito de Harvard, de sotaque e idéias tão claros quanto as águas do Tietê, Roberto Mangabeira Unger (o mesmo que há pouco tempo taxara o governo a que hoje pertence de "o mais corrupto da República"), tenha debuxado, na solenidade de posse de seu subalterno, a necessidade de uma simbiose "dialética" entre economistas de diversas tendências.
Para o simbiôntico professor, ao que parece, se alocarmos em uma mesma pesquisa um economista ortodoxo e uma heterodoxa, e se ambos seguirem os nada cândidos conselhos relaxantes da atual ministra do Turismo, virá à luz, em nove meses, um genial bebê "moneterodoxo", ou "desenvolvimentarista", superior aos pais... Essa parvoíce hegeliana ignora que tal gestação é impossível, pela mesma razão que "ou está chovendo ou não está": são atributos contraditórios, e não contrários, não admitindo meios termos.
Não é preciso explicar, para não subestimarmos a inteligência do leitor, mas é recomendável chamar a atenção para a gravidade das sandices fantasiadas de sabedoria pronunciadas naquele evento. Se nosso Estado é raquítico, só pode ser em termos da eficácia, caráter, eficiência, integridade, ética, moral, correção, idoneidade, honestidade, virtuosidade, dignidade e retidão de propósitos para com o bem comum, com que desenvolve as suas ações. É desnecessário buscar exemplos: basta observarmos que ano após ano trabalhamos para sustentá-lo até o dia 26 de maio, e lembrarmo-nos da própria assertiva do agora "secretário da Bola de Cristal", quando o qualificou como o mais deteriorado da República.
Não poucos dos que ocupam ou ocuparam o poder, incluindo vários ministros, ex-ministros, secretários e, obviamente, presidentes e ex-presidentes, não se limitam a validar o pitoresco "Princípio de Peter", proposto por Laurence Peter em 1969 e hoje considerado um clássico no campo da gestão: "In a hierarchy, every employee tends to rise to his level of incompetence" (em uma hierarquia, todo funcionário tende a ser promovido até o seu nível de incompetência) - a partir do qual já não possui capacidade para exercer a função que ocupa. Vão além: tornam tímida a modificação ao Princípio de Peter proposta por Frey, para quem "há pessoas que sobem três níveis acima de seu nível de incompetência, até a ocasião em que sua incompetência é notada". Três níveis, só? Mais, por favor... Neste governo, em particular, parece viger um terceiro aforismo, que podemos denominar de "Princípio de Camargo": "Quanto pior, melhor para o cargo"... Como as nomeações são feitas pelas hierarquias superiores, que se encontram num claro "nível de incompetência", podemos deduzir facilmente da máxima de Peter quão rasteiro deve ser o grau de nivelamento.
Estado raquítico no Brasil? "Dialética" entre liberais e intervencionistas? Pensar no "longo prazo", justo um governo que há 56 meses ainda não deslanchou? Menos, por favor - até porque o grau de QI médio dos brasileiros é bem maior do que os 25 que caracterizam a idiotia...
Certos ocupantes de altos cargos na hierarquia pública parecem crer que os cidadãos são idiotas. Ao tomar posse na presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), agora deslocado - na mais recente contra-dança do minueto que vem ensaiando desde a sua fundação - para a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo (sic), o economista (da Unicamp, naturalmente) Márcio Pochmann, secretário de Planejamento da ex-prefeita paulista, trombeteou a redefinição do papel do Estado brasileiro, que, segundo suas doutas palavras, seria "raquítico".
É preocupante que o respeitado órgão da Av. Presidente Antonio Carlos 51, abrigo de tantos economistas competentes, passe a ser comandado por quem, contra as evidências, emita juízo - falso e puramente ideológico - de tais proporções. Mais inquietante é que seu atual chefe, o excêntrico, ininteligível e "legendário" professor de Direito de Harvard, de sotaque e idéias tão claros quanto as águas do Tietê, Roberto Mangabeira Unger (o mesmo que há pouco tempo taxara o governo a que hoje pertence de "o mais corrupto da República"), tenha debuxado, na solenidade de posse de seu subalterno, a necessidade de uma simbiose "dialética" entre economistas de diversas tendências.
Para o simbiôntico professor, ao que parece, se alocarmos em uma mesma pesquisa um economista ortodoxo e uma heterodoxa, e se ambos seguirem os nada cândidos conselhos relaxantes da atual ministra do Turismo, virá à luz, em nove meses, um genial bebê "moneterodoxo", ou "desenvolvimentarista", superior aos pais... Essa parvoíce hegeliana ignora que tal gestação é impossível, pela mesma razão que "ou está chovendo ou não está": são atributos contraditórios, e não contrários, não admitindo meios termos.
Não é preciso explicar, para não subestimarmos a inteligência do leitor, mas é recomendável chamar a atenção para a gravidade das sandices fantasiadas de sabedoria pronunciadas naquele evento. Se nosso Estado é raquítico, só pode ser em termos da eficácia, caráter, eficiência, integridade, ética, moral, correção, idoneidade, honestidade, virtuosidade, dignidade e retidão de propósitos para com o bem comum, com que desenvolve as suas ações. É desnecessário buscar exemplos: basta observarmos que ano após ano trabalhamos para sustentá-lo até o dia 26 de maio, e lembrarmo-nos da própria assertiva do agora "secretário da Bola de Cristal", quando o qualificou como o mais deteriorado da República.
Não poucos dos que ocupam ou ocuparam o poder, incluindo vários ministros, ex-ministros, secretários e, obviamente, presidentes e ex-presidentes, não se limitam a validar o pitoresco "Princípio de Peter", proposto por Laurence Peter em 1969 e hoje considerado um clássico no campo da gestão: "In a hierarchy, every employee tends to rise to his level of incompetence" (em uma hierarquia, todo funcionário tende a ser promovido até o seu nível de incompetência) - a partir do qual já não possui capacidade para exercer a função que ocupa. Vão além: tornam tímida a modificação ao Princípio de Peter proposta por Frey, para quem "há pessoas que sobem três níveis acima de seu nível de incompetência, até a ocasião em que sua incompetência é notada". Três níveis, só? Mais, por favor... Neste governo, em particular, parece viger um terceiro aforismo, que podemos denominar de "Princípio de Camargo": "Quanto pior, melhor para o cargo"... Como as nomeações são feitas pelas hierarquias superiores, que se encontram num claro "nível de incompetência", podemos deduzir facilmente da máxima de Peter quão rasteiro deve ser o grau de nivelamento.
Estado raquítico no Brasil? "Dialética" entre liberais e intervencionistas? Pensar no "longo prazo", justo um governo que há 56 meses ainda não deslanchou? Menos, por favor - até porque o grau de QI médio dos brasileiros é bem maior do que os 25 que caracterizam a idiotia...