quarta-feira, agosto 08, 2007

Por um Brasil menos aéreo

Fausto Wolff , Jornal do Brasil

*** O novel ministro da Defesa, Nelson Joban, anda lendo gibis demais. Dizem, aliás, que faz isso ininterruptamente e, desde menino, cultiva grande admiração por seus super-heróis favoritos. Nada contra ler gibis, ao contrário. Não podemos é acreditar em tudo que eles dizem e passar a ver a vida com os olhos de um Chance Gardener. Quando o rei Çilva I convidou o gaúcho para a pasta, a primeira coisa que pensou foi o seguinte: "Será que com a pasta vem o uniforme?".

Em verdade, não veio, mas em todas as reuniões com subalternos, Joban tem comparecido com um belíssimo uniforme militar de grife. Na televisão, jogava para a platéia e comportava-se como se estivesse preparado para enfrentar as selvas do Vietnam. Fazia lembrar aqueles generais idiotas de Mussolini apresentados pelo cinema neo-realista de Rosselini e De Sica.

Na reunião que vi pela TV, era nítido que pouco estava interessado no que os outros (e ele mesmo) diziam. Estava interessado em dar ordens e enfatizá-las com a palavra ponto ao final de cada frase. Algo tipo: "Busque um copo de água e ponto". Gastou a sua cota de ridículo no primeiro dia da farsa, que poderíamos chamar de Capitão Joban contra o Reversor Maldito. Não riam. Nas mãos deste homem foi entregue a responsabilidade da defesa do país.

Anos atrás, disse que o senhor Luiz Silva trabalhava para um patrão que lhe ordenara concluir o trabalho iniciado por Fernando Henrique, o Cardoso. Tenho a impressão de que isso tornou-se uma obsessão para o rei. Não contente em expulsar a verdadeira esquerda do partido, beijar a mão de Jader Barbalho e Sarney, botar a mão no fogo por Roberto Jefferson e José Dirceu, e agora lutar por uma causa impossível, que é a absolvição de Renan, vem preenchendo seu ministério com adoradores de FH, o Cardoso. E, tal como ele, pede que esqueçamos tudo que escreveu antes.

Agora descobriram um artigo de Çilva I, de 2002, no qual dizia que a crise do setor aéreo estava em fase terminal. Sabia muito bem como estava a situação e, ainda assim, como presidente, botou Waldir Pires na fogueira. Não disse isso literalmente, mas deu a entender que a culpa de tudo havia sido do bom baiano, homem íntegro que se comportou com a ingenuidade de uma loura burra. Waldir Pires deve uma explicação para milhões de pessoas que ainda o admiram. A situação está braba e ficará brabíssima, pois Çilva I, a exemplo de FH, o Cardoso, ameaça nos torturar com um livro de poemas de sua lavra.

Bem mais divertidas - porque reais - do que as comédias estreladas por Totó, Fernandel e Aldo Fabrizzi são as sessões do Senado, que começam na terça e terminam na quinta. Divertem-se três dias por semana, mas recebem como se houvessem se divertido (à nossa custa) a semana inteira.

Ato primeiro: Renan chega com sua fantasia de boiadeiro do ar e começa a presidir a sessão. Ato segundo: um senador pede a palavra e começa a falar das empreiteiras madrinhas. Ato terceiro: Renan se levanta, passa a presidência para Tião Viana (que vem se esmerando no cargo de office-boy) e vai ao banheiro, não sem antes deixar uma ordem para que um assessor o informe quando a maré estiver baixa.

Ato quarto: os aliados de Renan planejam permanecer com a palavra ad-infinitum. Ato quinto: Renan reentra e reassume a presidência. Creio que semana que vem a situação vai piorar muito, graças à denúncia de que o moço das Alagoas, além de boiadeiro, também é laranjeiro do ar. Comprou duas rádios em Alagoas por três milhões utilizando laranjas, geralmente peões que não têm nada a ver com o peixe.

*** Vocês já notaram que todas as vezes em que a PM faz grandes incursões nas favelas os chefões do tráfico nunca estão em casa? Se mandam e deixam atrás de si vários bagrinhos ou aviõezinhos menores de idade, com alguns gramas de maconha. Os jornais, no dia seguinte, louvam o sucesso da operação.

Mas, com mil diabos, por que é que os corleones do tráfico nunca estão em seus esconderijos na hora do pega? Levando-se em conta que desde janeiro soldados da PM vêm assaltando turistas, não é difícil perceber que os capos são informados com antecedência e mudam de endereço. Se não fossem informados, quem pagaria o segundo salário dos defensores da lei e da ordem?

*** Com a morte de Bergman e de Antonioni, foram-se dois dos 50 grandes artistas, agora 48, que o mundo possui. Espera-se que os demais morram nos próximos dez anos, ocasião que passará para a História como A Morte da Cultura Mundial. Os Berlusconis da vida já estão salivando.