quarta-feira, agosto 08, 2007

Lula anuncia o início do segundo mandato

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Por desatenção ou erro primário de comunicação, o presidente Lula não deve ter consultado a sua assessoria de imprensa para o estranho desperdício do seu mais importante pronunciamento desde o começo do segundo mandato, quando anunciou o programa de obras para os três anos, quatro meses e 21 dias do bis da reeleição.

Francamente, não dá para entender. Pois se há notícia realmente importante e que merecia a pompa da rede nacional de rádio e televisão é a que o presidente amesquinhou com a modéstia do seu programa semanal Café com o presidente, gravado na véspera da sua viagem de cinco dias ao México e cinco países da América Latina.

A repercussão na imprensa foi discreta. No máximo, chamada na primeira página e o registro em duas colunas nas páginas internas. Nenhum comentário elogioso ou crítico. O sangramento lento do presidente do Senado, senador Renan Calheiros, de desfecho previsível, alçou às manchetes das primeiras páginas e se derrama por latifúndios de especulações.

Ora, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva - espicaçado pelas críticas à crise crônica do Ministério da Defesa e a bagunça no controle aéreo, com o saldo trágico de dois desastres e três centenas de vítimas, depois de hesitações, despistamentos, a vaia do Maracanã e os ensaios de apupos por onde aparece, da nomeação do ministro Nelson Jobim com amplos poderes para arrumar a casa - não segurou a língua e, no pior momento, anunciou ao país que o segundo mandato para valer começa agora, com o lançamento de um programa de obras no ritmo de urgência máxima.

É para já. Vai se examinar com atenção e não é bem assim. As verbas para as obras dependem da aprovação pelo Congresso do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Senado está engasgado com a crise provocada pelo caso sentimental do senador Renan Calheiros. Mas, que não pode demorar muito, necessita ser resolvido antes que a catinga empeste o Legislativo.

Se não convinha ao governo prolongar o longo período de mais de sete meses de paralisia do governo, com a atenção desviada para as barganhas de cargos com os partidos em troca do apoio e dos votos no Congresso, pelo menos seria de elementar tática montar o esquema para a ampla e ruidosa divulgação da grande novidade: o governo vai começar a trabalhar. E já está com o plano gigantesco de obras pronto. Ou, como garante o presidente, empenhando a palavra: "Vamos fazer deste país um canteiro de obras".

De duas, uma: ou o governo não está fazendo muita fé no mutirão ou está ligando muito pouco para o respeitável público. Porque o que o presidente anunciou no cafezinho semanal, na véspera de mais um giro internacional, é a recuperação a toque de caixa da desleixada malha de transportes. Do café de sábado às declarações aos repórteres que o acompanham, Lula renova as promessas de investimentos milionários, da ordem de R$ 504 bilhões previstos no PAC, na recuperação de rodovias, portos, ferrovias, aeroportos, gasodutos. Nunca se viu nada igual ou parecido nos quatro anos do primeiro mandato, assinalado pelo êxito da política econômica e na distribuição de mais de 11 milhões de Bolsas Família, além de outros programas na área social. E, por uma sucessão de escândalos e de CPIs e a perplexidade do governo, perdido na babel do monstrengo ministerial.

Ainda não é tudo. Pródigo nas promessas anuncia: "Quando eu chegar desta viagem pela América Central, nós vamos começar a anunciar as obras de infra-estrutura em estradas, ferrovias, gasodutos, a tudo, a portos e aeroportos. Vamos anunciar também e começar a liberação de dinheiro para que as obras comecem a acontecer".

Garante que o critério para a seleção das obras prioritárias é eminentemente técnico.

O presidente Lula está irreconhecível.