Editorial do Estadão
Ao tomar posse na presidência da BR Distribuidora, o petista José Eduardo Dutra - dois anos depois de renunciar ao comando da Petrobrás para disputar, sem êxito, uma cadeira de senador por Sergipe - defendeu abertamente, em causa própria, o aparelhamento pleno dos postos-chave da maior empresa brasileira - por sinal, de capital aberto. "A Petrobrás", afirmou, "é uma estatal e nomeações (nela) sempre foram movidas por indicações políticas", o que é uma meia verdade. Naturalmente, teve o cuidado de ressalvar que a "capacidade técnica" dos nomeados é sempre levada em conta - o que não é absolutamente verdade ainda que às vezes haja a coincidência. Mas esse tipo de coincidência de filiação partidária e capacidade técnica - seu caso - será cada vez mais raro quanto maior for o número de apadrinhados políticos na fila para a ocupação de cargos de direção na companhia. E é precisamente com isso que acena José Eduardo.
Ao tomar posse na presidência da BR Distribuidora, o petista José Eduardo Dutra - dois anos depois de renunciar ao comando da Petrobrás para disputar, sem êxito, uma cadeira de senador por Sergipe - defendeu abertamente, em causa própria, o aparelhamento pleno dos postos-chave da maior empresa brasileira - por sinal, de capital aberto. "A Petrobrás", afirmou, "é uma estatal e nomeações (nela) sempre foram movidas por indicações políticas", o que é uma meia verdade. Naturalmente, teve o cuidado de ressalvar que a "capacidade técnica" dos nomeados é sempre levada em conta - o que não é absolutamente verdade ainda que às vezes haja a coincidência. Mas esse tipo de coincidência de filiação partidária e capacidade técnica - seu caso - será cada vez mais raro quanto maior for o número de apadrinhados políticos na fila para a ocupação de cargos de direção na companhia. E é precisamente com isso que acena José Eduardo.
O seu raciocínio é simples, descontado o fato, decerto irrelevante para ele, de que governo é uma coisa e Estado é outra - e empresa estatal de capital aberto muito mais outra, ainda. Sendo de coalizão o governo Lula, argumenta, nada mais lógico que os partidos que a compõem estejam "representados na máquina". O que significa, em termos práticos, que a Petrobrás deve reservar no mínimo 11 funções relevantes para indicações políticas, dado ser este o total de agremiações governistas. No mínimo, dizemos, porque cada uma delas ambiciona bem mais do que uma diretoria ou instância assemelhada na organização - como ficou patente nas demandas de toma-lá, dá-cá estimuladas pela decisão do governo de aprovar a que preço for a prorrogação da CPMF até 2011.
É essa realidade, danosa para o País porque danosa para a empresa, que José Eduardo pretende justificar, dizendo que, "desde que a Petrobrás existe, sempre a presidência e a diretoria têm o respaldo do governo". Isso não pode servir de escusa para escancarar uma empresa dessa importância para o interesse nacional aos apetites de uma chusma de caciques e cortesãos partidários. Não passa pela cabeça de ninguém que cada um e todos eles tenham uma lista de afilhados composta exclusivamente por técnicos de reconhecida competência - e irrepreensíveis credenciais éticas, diga-se de passagem - à altura das necessidades da empresa. O novo titular da BR Distribuidora lembrou ainda que, ao ser indicado pelo PT, em 2003, para chefiar a Petrobrás, "disseram que eu era um sindicalista e um político que iria levar a empresa à bancarrota, mas o resultado foi exatamente o contrário".
Devagar com o andor. É fato objetivo, verificável na ponta do lápis, que na era Lula, coincidindo com o formidável surto de expansão econômica mundial de todos conhecido, o desempenho da Petrobrás ficou aquém não só do seu próprio, nos anos precedentes, como também daquele exibido pelas multinacionais com as quais ela deve ser cotejada. Talvez porque, neste período, o aparelhamento da megaestatal foi mais do que político, no sentido partidário do termo. Foi ideológico. Prova disso é o espantoso texto da carta de despedida do demitido diretor de Energia e Gás da empresa, Ildo Sauer, cujo posto, por decisão da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, passou a ser ocupado pela antecessora de José Eduardo Dutra na Distribuidora, Maria das Graças Foster.
O documento, típico do que o PT tem de mais retrógrado, demonstra que mesmo um especialista - pelo menos na teoria -, como é o caso de Sauer, tende a se comportar desastradamente num cargo de comando quando cegado pela ideologia. Ou, nas palavras comedidas da ministra, que cuidou de não citá-lo, "tem gente que é bom professor, excelente teórico, mas não é bom gestor". O que foi o gestor Sauer aparece por inteiro na sua carta. Não bastassem as suas diatribes contra "a introdução das reformas liberais no setor elétrico brasileiro", o imitigado rancor com que se refere ao ex-presidente Fernando Henrique e a sua alergia ao "livre mercado", o texto arrola os nomes com que ele batizou projetos do seu setor. Por exemplo, Mário Lago, Luiz Carlos Prestes, Fernando Gasparian, Leonel Brizola? "Isso porque temos partido", alardeia. "Eu e meus companheiros somos parte de uma história." Menos mal que, encarnada nele, essa história já não seja parte da Petrobrás.