Carlos Alberto Sardenberg, O Globo
Se uma pessoa de espírito capitalista, empreendedora, resolve abrir um negócio, prosperar e ganhar dinheiro honestamente, qual ambiente encontra no Brasil?Um ambiente hostil - é o que indica a pesquisa "Fazendo Negócios", do Banco Mundial, cuja edição 2007 acaba de ser publicada. Em um universo de 178 países, no qual o primeiro colocado apresenta o ambiente mais favorável aos empreendimentos, o Brasil ocupa a 122ª posição, tendo caído um lugar em relação ao ano passado.
Se uma pessoa de espírito capitalista, empreendedora, resolve abrir um negócio, prosperar e ganhar dinheiro honestamente, qual ambiente encontra no Brasil?Um ambiente hostil - é o que indica a pesquisa "Fazendo Negócios", do Banco Mundial, cuja edição 2007 acaba de ser publicada. Em um universo de 178 países, no qual o primeiro colocado apresenta o ambiente mais favorável aos empreendimentos, o Brasil ocupa a 122ª posição, tendo caído um lugar em relação ao ano passado.
Já a Índia, com sua tradicional burocracia pesada, ganhou 14 posições e passou o Brasil pela primeira vez. A China, como vem conseguindo todos os anos, melhorou dez posições para chegar ao 83º lugar, no seu esforço de ampliar aceleradamente a economia de mercado. Os dois emergentes que mais crescem estão em reformas permanentes pró-mercado. O Brasil retrocede.A pesquisa é um baita achado. Consegue "medir" o ambiente. Se a pessoa consegue abrir uma empresa em alguns dias, obtendo poucos registros e licenças via internet, sem precisar ir a qualquer repartição pública, nem falar com qualquer burocrata e ainda gastando pouco, esse país oferece um bom ambiente para os empreendedores.
Se, ao contrário, são necessários 152 dias para abrir a empresa, 411 dias para completar a papelada junto a diversas repartições, pagando-se taxas caras para os governos e honorários para os advogados e contadores, o ambiente é um desestímulo só.
Este último é o brasileiro. O outro é que se encontra em lugares tão diferentes entre si no grau de desenvolvimento, na história e na cultura - como Cingapura, Nova Zelândia, Estados Unidos, Hong Kong e Dinamarca, os primeiros cinco colocados no ranking do Banco Mundial. Diferentes, mas com um sólido ponto comum: garantir a propriedade e abrir espaço para o empreendedor privado, considerado a fonte primária da criação de valor.
A hostilidade brasileira não vem do acaso. Reflete uma cultura que desconfia dos capitalistas. O país impõe tantas exigências, regras e controles ao funcionamento de uma empresa porque se desconfia que o empreendedor é um predador e sonegador de impostos.
E é assim mesmo que a economia de mercado aparece naqueles livros didáticos e quase didáticos adotados em escolas públicas e privadas do país - objeto desta coluna na última quinta-feira ("As elites socialistas").
Os e-mails enviados pelos leitores a propósito do tema - abordado inicialmente em coluna de Ali Kamel e depois tratado em reportagens deste jornal - podem ser assim divididos:
- muitos manifestaram surpresa com o uso de tais livros; outros apoiaram que se levantasse a questão da doutrinação;
- estudantes relataram as pregações socialistas em suas escolas, de ensino médio e superior; alguns contaram que, ao pedirem livros sobre a economia capitalista, ou não foram atendidos ou foram encaminhados para histórias do capitalismo escritas por autores socialistas;
- profissionais informaram sobre provas em concursos públicos nas quais a resposta certa, por exemplo, era cravar que as invasões de terra são "necessárias para desafogar os oprimidos";
- intelectuais sustentaram que socialismo e capitalismo deveriam ser ambos estudados no mesmo nível, porque ambos os sistemas teriam prós e contras;
- outros ainda acreditam fielmente que o capitalismo é uma droga, vai naufragar um dia e dar lugar a um novo socialismo; por isso, é preciso ensinar a utopia do socialismo contra a barbárie do capitalismo real.
Em atenção a todos, deixo aqui algumas observações. A primeira é que não, os dois sistemas não podem ser colocados no mesmo nível. Um fracassou, o outro permanece. O que se observa hoje é a introdução de milhões de pessoas na economia de mercado e o progresso firme de países que adotam esse sistema. Portanto, este é o tema central.
O socialismo deve ser objeto de estudos históricos. O capitalismo é história e realidade atual. Os alunos precisam aprender e entender o regime em que vivem e viverão.
Leitores socialistas ou simplesmente de boas almas escreveram: há pobreza e desigualdade no capitalismo, isso sendo prova de fracasso.
Errado, tão equivocado quanto dizer que o aparecimento de ricos na China é prova do sucesso. O capitalismo está aí porque a Humanidade entendeu ser essa a forma mais eficiente de organizar a economia e criar valor constantemente.As questões de pobreza e desigualdade têm sido amplamente discutidas no âmbito da economia de mercado - como o faz o Alan Greenspan, em seu monumental "A era da turbulência", este, sim, um livro essencial para nossos jovens.Por não completar o funeral do socialismo, o Brasil se atrasa e perde as imensas oportunidades que o capitalismo global oferece.