domingo, outubro 28, 2007

Campo se arma e acirra conflito agrário

Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia

Na sua edição deste domingo, a Folha de São Paulo traz uma reportagem sobre a questão uma questão prestes a explodir qualquer hora, e com proporções gigantescas. Trata do conflito agrário que já fez centenas de vítimas nos últimos anos, e tende a se tornar ainda mais problemática, na medida em que o País intensifica seus investimentos em produtos dos quais se projeta produzir bio-combustíveis.

Uma das razões para enorme sucesso do agro-negócio brasileiro, foi a excelência das pesquisas desenvolvidas a partir da EMPRAPA, hoje reconhecidamente uma empresa de vanguarda neste campo de pesquisa e respeitada internacionalmente. Um exemplo foi a expansão das culturas no Centro-Oeste onde, rigorosamente, o solo é bastante pobre. Lá, a EMBRAPA desenvolveu sementes e métodos que transformaram a região como a maior produtora de grãos do país. A conseqüência foi o rápido desenvolvimento dos Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, antes completamente esquecidos e perdidos na geopolítica brasileira.

Pois bem, todo este trabalho de pesquisa, desenvolvimento e progresso corre o risco de ser perdido por conta das ações desencadeadas pelos integrantes do MST que, hoje, não se contenta mais em invadir terras “improdutivas”. Com incrível esperteza, seus líderes perceberam que este negócio de invadir áreas em que precisariam trabalhar para prover seu sustento não “tá” com nada. O negócio é invadir logo fazendas em que o pasto esteja formado, as culturas devidamente assentadas e, de preferência, que tenha um bom lote de gado.

Com a chegada de Lula ao poder, o MST se sentiu do que animado em continuar na sua senda criminosa, alimentado por se sentir autorizado em fazer o que bem entende, indispor-se ao estado legal, porque sabia que sua amizade com o imperador lhe renderia a necessária impunidade. Lula não trairia seus “companheiros” de longa data. Deste modo, de militantes partidários, converteram-se em meliantes na prática abusiva de invadir propriedades privadas de forma ilegal e constante.

Deste modo, o que se viu é que as invasões hoje são praticadas de norte a sul, os prédios públicos passaram a se tornar alvo preferencial, seus bandoleiros passaram a desafiar de forma escancarada a ordem legal, as verbas do Tesouro liberadas para o Movimento se tornaram mais gordas, e nem por isso se vê o governo minimamente em executar uma de suas bandeiras históricas que é a reforma agrária. Ou seja, o governo que aí está apenas alimenta que o conflite agrário se torne mais e mais explosivo.

E reparem num detalhe impressionante: mais de um terço da balança comercial brasileira é bancada pelo agro-negócio. São milhões de empregos no campo e milhões de postos de trabalho que a cadeia produtiva é capaz de gerar. Para um país na nossa condições, este acaba sendo um dos atestados de maior incompetência, porque ao invés de alimentar e patrocinar melhores condições e incentivos para o campo se desenvolver, no fundo o governo acaba jogando mais lenha no fogo da discórdia e do conflito. Quem perde? O país todo, por certo. O que não é admissível é o governo continuar delirando e se mostrando absoluto omisso em relação a esta questão. Compete a qualquer governante, inclusive o governo federal atual, colocar suas questões de “amizade” abaixo da linha que estabelece o estado de direito como norma condutora de uma sociedade. Dar cãs costas e fazer de conta que não vê que sua omissão só tende a produzir mais mortes, invasões e depredações, é assumir o papel de cúmplice de criminosos, assassinos e bandoleiros.

Não se pode, também , continuar alimentando a glamourização dos sem terras, porque estes há muito tempo abandonaram o papel de “vítimas” e passaram a agir com agentes do terror e da baderna. E, de acordo com a lei, é nesta condição que precisam ser enquadrados. Até porque, perguntem ao Stédile, se a reforma agrária de agora é melhor ou pior. Segundo ele próprio declara, ela simplesmente não existe.

Portanto, é obrigação do Estado agir no sentido de assegurar aos agentes econômicos um mínimo de segurança. O raio que sequer nas cidades o governo Lula consegue garantir segurança, que dirá no campo, onde seus “aliados” sem terra, ligados ao MST e congêneres, praticam o que bem entendem, principalmente, indispor-se ao estado legal que serve para todos, inclusive os amigos e aliados do governo.

Abaixo, trechos da reportagem.

“...(...) Fazendeiros e sem-terra acirram a disputa armada no conflito agrário no Brasil. Empresas de segurança assumem o papel da polícia e desocupam propriedades rurais invadidas no Paraná. Grupos encapuzados e fortemente armados servem como espécie de equipe precursora de sem-terra invasores no Rio Grande do Sul.

"Jagunços" são contratados a R$ 50 por dia em Pernambuco para proteger usinas de açúcar. No Pará, milícias armadas montam guarda na entrada de fazendas.

O saldo desse acirramento, somente na semana passada, foi de três mortes. Começou no último domingo, quando um sem-terra e um vigilante morreram durante tiroteio após invasão da fazenda da multinacional suíça Syngenta Seeds, na região de Cascavel (PR).

Na terça-feira, um líder sem-terra foi morto a tiros em emboscada em Dom Eliseu (PA). Manuel da Conceição Cruz Filho, da Fetraf (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar), havia liderado invasão de terra três meses antes.

(...)
"Eles [sem-terra] estão se preparando [para o conflito]. E nós também", diz o ruralista Meneghel. "Continuaremos defendendo as propriedades, porque o governo do Estado não faz isso."

No Pará, o Sindicato Rural de Redenção (916 km de Belém) comunicou ao Ministério da Justiça na semana passada a ação de milícias armadas -compostas de 15 a 60 homens- que estariam invadindo propriedades e ameaçando fazendeiros no sudeste do Estado. A Polícia Civil apura o caso.Na avaliação de Rosângela Hanemann, presidente do sindicato de proprietários, "os movimentos sociais estão se militarizando e criando verdadeiras guerrilhas".

Outra denúncia de uso de armas por sem-terra está sendo investigada no Rio Grande do Sul. A Brigada Militar (a PM gaúcha) afirma que invasões do MST no Estado são precedidas pela atuação de um grupo de homens armados e encapuzados que expulsam funcionários das propriedades e abrem caminho para militantes do movimento, desarmados. O MST nega.
(...)
“...Com base em investigações e depoimentos de testemunhas, a Agência de Inteligência da Brigada Militar detectou a atuação de uma espécie de grupo de elite do MST, armado e encapuzado, durante invasões de fazendas no interior do Rio Grande do Sul. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) nega.

Segundo a Brigada Militar, grupo de aproximadamente dez homens armados faz batidas antes das invasões, geralmente de madrugada, para expulsar caseiros, capatazes ou famílias que estão no local.

Esse grupo foge do local antes de, algumas horas mais tarde, chegarem os ônibus com famílias de sem-terra -carregando instrumentos de trabalho como enxadas e foices- para a invasão propriamente dita
.(...)”