“O MUNDO NÃO É CHEIO DE ANJOS”
Cláudio Shikida, site Instituto Millenium
Diversos consumidores (ricos) de drogas e membros das corporações militares se uniram. Não, não se trata de uma aliança estranha. Trata-se da reação dos mesmos ao filme "Tropa de Elite". Estão ambos bem revoltados com esta história de mostrar como as pessoas agem em situações nem sempre vivenciadas nos condomínios fechados que, cada vez mais, são o sonho de uma geração que cresceu sob a esperança de que o final do regime militar lhes traria soluções mágicas, tanto para o crime quanto para outros temas freqüentes nos programas de polêmicas em nossas televisões.
Cláudio Shikida, site Instituto Millenium
Diversos consumidores (ricos) de drogas e membros das corporações militares se uniram. Não, não se trata de uma aliança estranha. Trata-se da reação dos mesmos ao filme "Tropa de Elite". Estão ambos bem revoltados com esta história de mostrar como as pessoas agem em situações nem sempre vivenciadas nos condomínios fechados que, cada vez mais, são o sonho de uma geração que cresceu sob a esperança de que o final do regime militar lhes traria soluções mágicas, tanto para o crime quanto para outros temas freqüentes nos programas de polêmicas em nossas televisões.
Alguns pais irresponsáveis - aqueles que terceirizam a educação dos filhos - estão bravos porque estes "foram expostos" a cenas de violência no cinema (como se eles mesmos não tivessem escolhido livremente ir ao filme...). Há alguns meses, um pai dizia ser o seu filho universitário "apenas um menino", embora o mesmo tivesse espancado uma doméstica na rua. Um pai destes, provavelmente, deve estar bem irritado com a exposição de seu meninão a cenas de violência como as (poucas) que vi em "Tropa". Afinal, ele vai, em algum momento, enxergar-se ali, ou no papel dos traficantes, do hipócrita estudante da classe média, do policial ou, quem sabe, em alguma mistura de todos eles.
Por sua vez, policiais militares e os tradicionais "ongueiros" se irritam porque gostariam de ver um filme no qual não fosse mostrado o lado obscuro de suas atividades. Obscuro, eu disse? Obscuro para quem não mora perto da favela, para quem nunca foi assaltado diante de um incompreensivelmente impassível policial militar ou, sei lá, já viu o policial parar em algum ponto do comércio para buscar seu "adicional de salário (livre de impostos)".
Traficantes, por motivos óbvios, não têm falado muito sobre o filme. Provavelmente estimularão, discretamente, a crença de que o filme faz a apologia da violência contra os pobres do morro. Discurso que agrada os nossos novo-socialistas (aqueles que enriqueceram com a abertura da economia, mas adotam um discurso envergonhado que chamam de "social", como se vê, claramente, em "Tropa de Elite") e que certamente será tema de campanhas e passeatas "pacíficas". Será que tiroteio no Rio de Janeiro só pára quando há passeatas de ongueiros?
Para todos tenho uma notícia que não é exatamente uma novidade: não existem soluções mágicas. Primeiro, não há recursos suficientes para você zerar a violência, seja ela originária de torturas de policiais ou de criminosos. É verdade que o Ministro da Fazenda anda por aí falando da importância da CPMF e tudo o mais, mas o contínuo crescimento do tamanho do governo promovido há anos - e acelerado recentemente? - não apresenta uma correlação positiva com a queda da criminalidade ou da violência.
Em segundo lugar, soluções mágicas são manifestações de um fenômeno da ação coletiva chamado de problema do carona. Todos nós queremos resolver o problema da violência (ou da educação de nossos filhos), mas não queremos abrir mão da hora extra no serviço para tanto. Mesmo no caso dos "ongueiros", o esforço em captar recursos privados parece ter sucumbido ao canto da sereia dos recursos públicos. O governo, tal como nossos pais que terceirizam a educação, fazem o mesmo com suas responsabilidades, passando-as para ONGs. Só recentemente - quantos já não enriqueceram com isto? - a tal CPI começou a trabalhar e, se haverá ou não ressarcimento de dinheiro público ao Tesouro, é outra história.
O engraçado disto tudo é que vários "ongueiros" (mas não apenas eles) bradam aos quatro cantos que "tudo isto que está aí" é culpa do "liberalismo exacerbado". Será mesmo? Vejamos, novamente, nossos "atores sociais":
i) Pais realmente liberais não terceirizam a educação dos filhos. Normalmente, até, desconfiam da doutrinação promovida pelo Estado e acreditam que suas crenças devem ser respeitadas. Além disso, pais realmente liberais não defendem o uso da violência gratuita como forma de diversão para meninotes universitários porque entendem que liberdade é inseparavelmente conectada à responsabildade. Ah sim, não existe liberdade "social" ou responsabilidade "social", mas apenas a liberdade e a responsabilidade individuais. Ou então seu filho nunca é culpado de nada, não é?
ii) Oficiais da lei, como policiais e seguranças privados, também têm seu lugar em uma sociedade liberal. Mas, neste caso, eles entendem que o uso da força é um privilégio perigoso e importante que deve ser usado para promover a prosperidade da sociedade. Crimes devem ser punidos e, sim, há sempre um problema quando a lei é desrespeitada porque alguém abusa de seu poder econômico. Claro que isto é desagradável, mas não é corolário disto que se deva sair por aí arrastando corpos de um lado para outro para inflar estatísticas...
iii) Ongueiros verdadeiramente liberais, para começo de conversa, não aceitam um único centavo de financiamento governamental (aqui, sinônimo de estatal). Mas nem um único centavo. Por quê? Porque sabem que se corromper por um centavo não torna sua corrupção menor do que a de outro. Como diz o dito popular: "roubar uma agulha ou um milhão não tem diferença: é tudo ladrão". É mais difícil? É. Mas o cara não disse que estava "comprometido com uma causa"? Se capitula ante o primeiro fracasso na coleta de recursos, então deveria lutar para que isto mudasse e não aceitar a ajuda estatal...ou mesmo do traficante para abrir uma escola de teatro no alto do morro.
iv) Consumidores (que normalmente também atuam como revendedores de drogas) liberais gostariam de consumir suas drogas. Se há alguém querendo lhe vender drogas, eis aí uma legítima transação comercial. Os não-liberais nunca dizem, mas o fato de o comércio de drogas ocorrer ilegalmente implica em uma estrutura de mercado imperfeita no lado da oferta, com exacerbado poder para pequenos grupos. Conseqüência? Uso intensivo da violência. Tem razão o personagem do filme: o consumo de maconha do leitor deste artigo tem um custo social que pode, sim, ser elevado relativamente a um arranjo mais liberal do mercado de drogas. Só que consumidores de drogas raramente são liberais: não se importam com a responsabilidade de seus atos. Com estes, nem dá para começar a discutir filosofias liberais (ou as idéias de Foucault, como se viu no filme).
O mundo não é cheio de anjos. É somente isto que o filme mostra. Em um mundo assim, como é que você prefere viver? Prefere trocar sua liberdade por mais segurança? Esta troca é falsa, não existe. Não é possível ter o máximo de liberdade com o mínimo de segurança porque, simplesmente, a liberdade é acompanhada de responsabilidade e esta implica em agirmos segundo o princípio da não-agressão. Por sua vez, só faz sentido falar em não-agressão quando há algum potencial indivíduo a ser agredido.
Pode ser difícil concordar com tudo o que eu disse e nem advogo para mim a sabedoria de meus companheiros de espaço aqui no Instituto Millenium. Mas eu prefiro que você, leitor, tenha uma decisão difícil sobre o uso da violência sobre seres humanos do que uma decisão fácil. Afinal, nunca se sabe quem, amanhã, poderá estar "segurando o saco"... ou com a cabeça dentro dele.