Estadão
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O coronel Hugo Chávez dispõe de folgada maioria na Assembléia Nacional para aprovar a constituição de seus sonhos. Pode-se dar como certo que, dentro de uns poucos dias, estará sacramentada a reforma que implantará na Venezuela um regime que submeterá toda atividade política, econômica, social e cultural à vontade de um único homem. E, de fato, é esta a única finalidade da reforma feita sob medida por e para Hugo Chávez: dar tintas de legitimidade constitucional a uma ditadura.
Mas também se pode dar como certo que Hugo Chávez já não conta com todo o apoio da sociedade venezuelana com que passou a contar desde a tentativa de golpe que o afastou do poder por 48 horas há quatro anos. O silêncio cívico que se seguiu às greves gerais e às gigantescas e quase diárias manifestações de rua que precederam a tentativa de golpe volta a ser rompido. Parcelas ponderáveis da população vão se dando conta de que o chavismo não é apenas mais uma moda populista ou uma alternativa legítima a muitas décadas de revezamento no poder de dois partidos que se haviam corrompido, mas, sim, é uma ameaça real e imediata às liberdades individuais e políticas. E não se deve estranhar essa percepção tardia.
Chávez só chegou aonde chegou porque é um grande comunicador e um excelente organizador. Suas intermináveis arengas radiofônicas e sua eficiente máquina de relações públicas ajudaram a anestesiar o senso crítico de boa parte da população. Com igual eficiência, ele estruturou o “bolivarianismo” de forma a, simultaneamente, angariar apoios e a reprimir dissidências. O resultado é que cerca de 70% dos venezuelanos ou não sabem o que está sendo discutido na Assembléia ou não fazem idéia de quais serão as verdadeiras conseqüências da implantação do “socialismo do século 21”.
Essa ignorância começa a diminuir, mas não por obra dos partidos de oposição ou do que restou dos carcomidos partidos tradicionais. A reação está vindo da sociedade organizada.
A demonstração mais visível dessa reação, até agora, foi a marcha dos estudantes universitários pelas ruas de Caracas, na terça-feira. Mais de 20 mil jovens concentraram-se na Universidade Central da Venezuela e seguiram em passeata até a Assembléia Nacional. Seu objetivo não era pressionar o Legislativo a rejeitar o monstrengo constitucional - que já estava quase todo aprovado em terceira e última discussão -, mas pedir que o referendo convocado para o dia 2 de dezembro fosse adiado para 2 de fevereiro. Querem tempo para que a população possa se inteirar da letra, do espírito e das conseqüências do ato que transformará Chávez em ditador constitucional da Venezuela.
A manifestação, autorizada pela municipalidade de Caracas e protegida pela Polícia Metropolitana, enfrentou durante todo o percurso a hostilidade de grupos de militantes chavistas. Foi interrompida momentaneamente pela repressão violenta da Guarda Nacional, mas não recuou. Finalmente, uma delegação de estudantes foi escoltada pela polícia até a Assembléia, onde entregaram o seu manifesto.
No mesmo dia, as Academias Nacionais de Letras, História, Medicina, Ciências Sociais e Economia emitiram comunicado conjunto, afirmando que só se pode mudar os princípios fundamentais da constituição vigente através de uma Assembléia Constituinte. “O contrário constitui uma fraude constitucional.”
O episcopado venezuelano também saiu a campo: “Um modelo de Estado socialista, marxista-leninista, estatista é contrário ao pensamento do libertador Simón Bolívar e também contrário à natureza do ser humano e à visão cristã do homem, porque estabelece o domínio absoluto do Estado sobre a pessoa. Experiências de outros países mostram que em tal sistema o Estado e seu governo se convertem em opressores das pessoas e da sociedade, restringem a liberdade pessoal e a expressão religiosa, e causam gravíssima deterioração da economia, produzindo pobreza generalizada.”
A Assembléia Nacional, controlada por Chávez, aprovará a constituição liberticida. Mas as manifestações desta semana mostram que, daqui por diante, Chávez não poderá continuar fingindo de democracia. Só a repressão pela força policial-militar poderá evitar que seu reinado termine antes do que ele pretende.
***** COMENTANDO A NOTICIA:
Várias vezes já afirmamos aqui que um povo admite por um certo que seu presidente minta para a nação. Porém, mentiras presidenciais têm prazo de validade. Chega o momento que elas cansam, porque o que se assista é o uso descarado da mistificação para o proveito próprio apenas dos amigos do poder.
A reação do povo venezuelano pode até ser sufocado à força pelo poder que Chavez centrou em suas mãos, porém, sufocar a reação popular só fará crescer a revolta e a indignação. Até porque o ditador venezuelano não conseguirá, apesar do aparato de que dispõem, esconder por muito mais tempo a mediocridade em que está atolando seu país.
No blog do Josias de Souza, ele recobra um vídeo em que Chavez mentiu por três vezes, ainda quando era candidato. Vale a pena relembrar para que nos sirva de lição. O comentário a seguir é do próprio Josias de Souza.
Hugo Chávez mentiu uma vez, duas vezes, três vezes
(Clique na foto para assistir ao vídeo)
Monopolizada pelo companheiro Hugo Chávez, a Assembléia Nacional da Venezuela acaba de aprovar um artigo polêmico. Injeta na Constituição venezuelana um artigo que estica de seis para sete anos o mandato presidencial. Permite, de resto, a reeleição eterna do presidente.
No Brasil, a despeito do desejo de um naco expressivo do petismo, Lula jura que não pretende disputar a re-reeleição. Trata a tese do terceiro mandato como “delírio”. É certo que Lula não é Chávez. Tampouco o Brasil é a Venezuela. Ainda assim, não custa lembrar o que dizia o líder do socialismo bolivariano do século 21 antes de chegar ao poder.
Em entrevista gravada no dia 5 de dezembro de 1998 (assista lá no alto), dias antes da eleição que levou Chávez à presidência da Venezuela pela primeira vez, o companheiro dizia que entregaria o poder dali a cinco anos. Jurava que não nacionalizaria nenhuma empresa. Assegurava que não buliria com os meios de comunicação privados. Mentira, mentira e mentira, eis o que se verifica agora.
No Brasil, a despeito do desejo de um naco expressivo do petismo, Lula jura que não pretende disputar a re-reeleição. Trata a tese do terceiro mandato como “delírio”. É certo que Lula não é Chávez. Tampouco o Brasil é a Venezuela. Ainda assim, não custa lembrar o que dizia o líder do socialismo bolivariano do século 21 antes de chegar ao poder.
Em entrevista gravada no dia 5 de dezembro de 1998 (assista lá no alto), dias antes da eleição que levou Chávez à presidência da Venezuela pela primeira vez, o companheiro dizia que entregaria o poder dali a cinco anos. Jurava que não nacionalizaria nenhuma empresa. Assegurava que não buliria com os meios de comunicação privados. Mentira, mentira e mentira, eis o que se verifica agora.
