sábado, outubro 27, 2007

A vingança irada da natureza

Villas-Bôas Côrrea, Jornal do Brasil

Todas as explicações e justificativas técnicas ou leigas para os deslizamentos de toneladas de terra das encostas do morro acima do Túnel Rebouças, que deram um nó no trânsito da cidade, virtualmente paralisada durante um dia pelos engarrafamentos gigantescos, devem ser analisadas com serenidade pelos técnicos competentes.

Na lista dos culpados, além da chuvarada de violência incomum, mesmo nesta época do ano, muitas outras e discutíveis desculpas não escapam da crítica severa, mas objetiva.

Elas desfilam nos desabafos das autoridades e no clássico jogo- de-empurra que não leva a coisa nenhuma. Com cautela e paciência é possível separar os dribles dos espertos da seriedade das análises objetivas. A começar pelo depoimento do secretário municipal de Obras, Eider Dantas, que reconhece que as encostas do Túnel Rebouças não contam com o monitoramento sistemático para a avaliação das suas precisas condições geológicas. O técnico suspeitou de uma ligação clandestina de água na rede da Cedae, que se teria rompido. E sua perspicácia foi confirmada.

Mais grave e indefensável é o corte na verba da prefeitura para a contenção das encostas de risco, que reduziu os R$ 16,6 milhões gastos em 2002 para menos de um sexto este ano: R$ 2,6 milhões, dos quais até agora apenas R$ 1,3 milhão foram liberados. Uma azarada economia do que é uma migalha do orçamento milionário.

Bate-boca inútil. Vale a pena prestar atenção à singela e pertinente observação do engenheiro Maurício Ehrlich, da Coppe-UFRJ, que toca o dedo na ferida e aponta a escalada da favelização pelo agravamento do perigo do deslizamento das encostas.

No Oeste dos EUA, a tragédia do incêndio, na Califórnia, lança um brado de advertência para o mundo. Cerca de um milhão de pessoas abandonaram às pressas as suas casas, muitas salvando apenas os documentos pessoais e o que coube na pasta ou no embrulho. São mais de 1.700 quilômetros quadrados destruídos em cinco dias de fogaréu. Os primeiros sinais de esperança com a redução da velocidade dos ventos, que chegaram a 130 km/h, não consolam os que perderam tudo, com a destruição de 1.500 prédios e casas.

Mas é nas semelhanças das causas da doença deste século no mundo que o instinto de sobrevivência adverte para o preço suicida da destruição em ritmo crescente da natureza. E para a sua implacável vingança.

Mais do que o pavor da ameaça remota do terremoto que pode castigar a Califórnia, os incêndios que se repetem com freqüência e crescente violência são o terror de todos os dias. Os especialistas das manhas do clima e dos seus desatinos, como Bill Patzert, vão ao ponto exato: "É a mãe natureza contra a natureza humana". Nas últimas dezenas de anos, a ânsia do desenvolvimento a qualquer preço acumulou combustível que alimenta os incêndios que destroem florestas, casas, vidas humanas, bairros inteiros.

Estamos na mesma rota da insensatez. Os índices catastróficos de destruição da Amazônia, que chegaram a baixar, voltaram a disparar. O crescimento descontrolado das cidades, praticamente em todo o país, degrada a qualidade de vida, escala morros para a construção de favelas sem qualquer plano urbanístico.

A visão romântica da favela berço do samba, da lata d'água na cabeça, da lua salpicando estrelas pelo chão, é hoje uma saudade. O tráfico de drogas ocupou as favelas e resiste às operações espetaculosas da polícia, com tiroteio, vítimas e a ilusão de resultados, que se dissipam com o nascer do dia.